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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

No aniversário do Mais Olho que Barriga, um presente direto da capital: Maní



Para comemorar o aniversário do Mais Olho Que Barriga, pensei em um presente à altura do meu apreço pelo blog e não poderia ter feito melhor escolha para o post de hoje: o Maní, em São Paulo.

É fato: o Maní é um dos melhores restaurantes do país. A cozinha é comandada pelo casal de chefs Helena Rizzo e Daniel Redondo, cuja inspiração e criatividade se refletem nos inusitados pratos com marcante influência da cozinha tecnoemocional - leia-se espumas, gelatinas, esferas disso e daquilo e por aí vai. Ingredientes regionais e orgânicos são transformados com técnicas ultra-modernas até se tornarem quase que irreconhecíveis, como pó de anchova, espuma de pupunha, esferas de feijoada... num primeiro momento, isso pode soar assustador, como se a cozinha tivesse se tornado um laboratório dominado por cientistas malucos, mas o que se vê no Maní não é nada menos que extraordinário e delicioso. Aliás, os chefs receberam elogios do próprio mestre responsável pela popularização da cozinha tecnoemocional e dono de uma dos melhores restaurantes do mundo, o espanhol Ferran Adrià, que esteve no Maní e aprovou o que viu (e comeu).

Agora talvez vocês consigam imaginar o nível das minhas expectativas, o que gerou um misto de ansiedade e euforia quando surgiu a oportunidade de conhecer o Maní, no último final de semana. Já não era possível fazer reservas, mas algo me dizia que até a espera sentada num banquinho de madeira em frente ao restaurante valeria à pena. Após conseguir nossa mesa, mamãe e eu começamos uma discussão que já é um hábito entre nós: pedir ou não o menu degustação - sendo que os pratos não estão listados no cardápio, ela tem restrições alimentares e os restaurantes exigem que todos da mesa façam a mesma escolha pelo menu. Lógico que para mim o ideal seria provar o máximo de pratos que eu pudesse, principalmente na condição de menú surpresa, onde o que conta é a inspiração do chef. O atendente nos confirmou o que já sabíamos, que somente poderíamos pedir o menú degustação se ambas topassem, mas mesmo assim se dispôs a consultar a chef se poderia abrir uma exceção. Qual não foi minha surpresa quando a própria Helena veio à nossa mesa e, com sua doçura e simplicidade, me disse que faria o menú só pra mim. Quase chorei de emoção, não só pela oportunidade de provar de tudo um pouco, mas também porque sou fã declarada da chef e me senti imensamente prestigiada pela presença dela na minha mesa.



A esta altura o jantar já havia se tornado especial, agora era uma questão de provar e aprovar aqueles pratos sobre os quais eu já havia lido uma centena de vezes e ficava imaginando quais seriam suas reais texturas e sabores.

O couvert já dava uma prévia do potencial daquela cozinha: um polvilho gigante, em formato de pastel, pirulitos de parmesão, bolinhas de queijo de cabra, coalhada seca e uma manteiga de excelente qualidade, ultra cremosa, com flor de sal. Diversão garantida durante a espera pelos pratos.

O polvilho gigante disputa a supremacia do couvert com o pirulito de parmesão

O menu degustação era composto por onze - onze! - pratos, sendo cinco entradas, quatro principais e duas sobremesas. Mesmo com a leveza dos pratos e suas pequenas quantidades, eu quase não dei conta do recado! Infelizmente, algumas das minhas fotos ficaram muito escuras, por isso recomendo, além do site do restaurante, outros dois blogs que fizeram ótimas fotos durante sua passagem pelo Maní: www.quebichomemordeu.wordpress.com e www.destemperados.blogspot.com

Para abrir o paladar, o bombom de foie gras com goiabada, envolto por capa de vinho do porto - a textura do foie era como uma mousse e a capa de vinho do porto estourou numa única mordida, revelando um sabor especialíssimo, mas que durou pouco... eu poderia comer uns vinte desse sem enjoar...

"Garçom, uma porção desse aqui, por favor"

Em seguida, um mil folhas de beterraba, com anchovas em pó e sorbet de beterraba. Lâminas de beterraba intercaladas com um creme muito leve contrastavam com o intenso pó de anchova, enquato o sorbet fazia o papel de "ponto fora da reta", gelado e naturalmente adocicado pela beterraba. Loucura...

A cada prato, uma minuciosa explicação de nosso eficiente atendente. A salada Waldorf, em versão totalmente desconstruída, era um mix de mini agrião com sorbet de aipo, gelatina de maçã, emulsão de gorgonzola e nozes caramelizadas. Impressionante como uma garfada com tudo junto faz com que o prato se torne algo familiar de novo.

Tem uma foto linda da salada Waldorf no site do Maní, essa aqui tá triste, eu sei...

Para o meu deleite, uma das entradas foi o tartar de vieiras com leite de amendoim aerado e caramelo de cardamomo - quem é leitor desse blog já sabe que sou fissurada em vieiras - e a versão hi-tech não decepcionou! Fresquíssimo, com um toque de pimenta tabasco, criando uma sensação de frio e quente na boca.

Um dos meus favoritos da noite

Enquanto eu me divertia com o menú degustação, minha mãe optou por duas entradas e um prato principal, sendo uma das entradas o hit "Ovo Perfecto", que é um ovo cozido durante duas horas e meia a 63 graus, o que faz com que sua gema fique com textura gelatinosa, acompanhado de espuma de pupunha. Eu sempre fui louca para provar o tal ovo e quando ele veio para minha mãe, quase não deixei ela comer. Como o meu menú era surpresa, não tinha como saber se ele viria para mim também, então tratei de garantir experimentando o dela. Mas não é que ele veio pra mim também? Mais espetacular que o ovo é a tal espuma de pupunha, de textura etérea, com um sabor que mais se parecia com uma lembrança de palmito.

Quem quiser também pode comer a gema com pãozinho...

Dentre os pratos principais, o primeiro deles foi um dos meus favoritos: peixe em crosta de mandiopan com caruru de taioba - para quem não sabe, a taioba é uma folha comumente utilizada no estado de Minas Gerais, de textura semelhante à couve e sabor mais leve que espinafre. O peixe, de carne extremamente macia, ficava sob uma casquinha crocante e sequinha de farelo de mandiopan, aquele mesmo de antigamente. O caruru de taioba era como um creme de sabor delicado mas com textura densa. Amei a combinação, realmente muito gostoso, comi devagarzinho para prolongar o prazer.



Entrei em êxtase quando o garçom colocou o prato seguinte na mesa: a famosa feijoada em esferas, uma das criações mais aclamadas da chef, agora inerte e pronta para ser desbravada bem ali na minha frente. Quase não deixei que ele me explicasse o prato - composto de carpaccio de pé de porco, esferas de feijão, crispy de couve, paio e laranja - eu já sabia de tudo isso. Agora eu queria mesmo saber qual era a da feijuca desconstruída, já que a original é meu prato favorito. Lógico que não é possível fazer uma comparação entre as versões, mas não é que eu adorei a versão moderninha? Óbvio que não trocaria uma pela outra, mas fiquei feliz em saber que há muito sabor em meio àquela técnica toda, as esferas de feijão estouram gostoso na boca, a couve é tão fininha que só serve mesmo para dar contraste de textura, enquanto o carpaccio de pé de porco se revela super saboroso. Fiquei realizada, só lamento não ter feito foto do prato, tamanha minha excitação para prová-lo. Para quem ficou curioso para ver a criação, sugiro visitar o Quebichomemordeu neste link aqui

Quando eu achava que já havia atingido o auge das minhas expectativas e que nada mais seria tão surpreendente, surge um rosbife envolto em crosta de um chá chinês de nome difícil (Lapsang Souchong) acompanhado de uma saladinha morna de batatas e uma pincelada de gema com alcaparras. Como sou daquelas que gosta de carne praticamente crua, imaginei que aquele pedacinho rosado de carne não faria a menor diferença na minha vida. Diabo de comida boa, não é que até aquele rosbife me surpreendeu? Deve ser a técnica aliada a equipamentos de última geração, só sei que maciez e sabor estavam presentes em abundância, mesmo aquele pedacinho de carne estando ao ponto, quando fibras costumam gritar sua presença deixando tudo meio rígido. A esta altura, eu já estava bestificada...

Grata surpresa

Enquanto isso, mamãe já não dava conta de seu prato principal, outro signature dish da chef, o excelente talharim de pupunha, cuja leveza do palmito combinava perfeitamente com o delicadíssimo molho de parmesão, salpicado com trufas. Por mais que eu estivesse quase satisfeita, não pude concordar com uma iguaria dessas sendo deixada no prato por falta de forças e mandei ver no talharim também. Confesso que não fiz muito esforço para raspar o prato, o talharim é simplesmentee magnífico em todos os sentidos, pelos seus ingredientes e execução.

Pedida certa

O último prato da sequência antes das sobremesas foi o cordeiro cozido por vinte e quatro horas, acompanhado de tubérculos assados, como batata, batata-doce, cará, inhame, etc. Não sei se pelo fato de ter sido o último prato e eu estar praticamente satisfeita, mas o cordeiro foi o menos espetacular dentre tudo o que provei naquela noite. A carne era ótima, macia e saborosa, os tubérculos eram autênticos em seu sabor natural, mas eu não escolheria o cordeiro como um prato principal fora do menú degustação, prefiro outros que foram realmente espetaculares.



Após todo esse frenesi gastronômico, quase não sobrava espaço para a sobremesa. Ainda bem que mamãe estava ali, formiga como é, pronta para atacar qualquer coisa contendo açúcar que eu deixasse escapar. A primeira sobremesa era um falso-ninho de mandioquinha (falso pois não eram fios de ovos e sim de mandioquinha), sobre creme de côco defumado com semente de puxuri - oi? O garçom me explicou que puxuri é uma semente da Amazônia, mas a finalidade dela na sobremesa ficou indefinida. Um doce bem gostoso, de execução interessante mas não chegou a surpreender meu paladar. Já o tal do açaí...

Ninho de mandioquinha

Açaí

A sobremesa tem um nome tão complexo, com tantos ingredientes, que perdi um tempinho anotando tudo para não dar mancada com você, leitor: sorvete de açaí com banana nanica, gemada com guaraná, farofa de aveio, marshmallow de açúcar mascavo e raspadinha de morango. Sei que pode parecer confuso, mas era um verdadeiro e-s-p-e-t-á-c-u-l-o, todos os ingredientes tinha função definida e quem se divertia mesmo era a língua, tamanha a diferença entre cada um deles. Realmente, um gran finale para uma refeição magnífica, ou ainda uma experiência singular, se assim me permitem definir o que foi minha visita ao Maní. Para coroar tudo isso, a própria Helena ainda voltou à minha mesa para perguntar se eu havia gostado... meu Deus, o que responder sem utilizar clichês? Simplesmente a agradeci por ter me proporcionado uma das refeições mais memoráveis da minha vida... de coração...

Em tempo, seguem valores para referência:
Couvert (jantar): 14 reais por pessoa
Menu degustação (11 pratos) - 198 reais
Ovo Perfecto: 27 reais
Talharim de Pupunha: 46 reais
Sauvignon Blanc Framinghan (NZ): 115 reais
Taça tinto Hermanos Lurton (ES): 28 reais

Maní Restaurante
www.manimanioca.com.br

sábado, 8 de maio de 2010

Delírios Gastronômicos na Paulicéia

Enfim, férias! Pois é, pessoal, agora os almoços com a galera da firrrma vão ficar um pouco de lado, mas com as férias virão posts bacanas além dos limites da RMC. Espero que gostem, pois o blog vai servir também de guia para quem quiser se aventurar nas delícias gastronômicas de alguns outros lugares.

Toda vez que saio de férias, costumo reservar alguns dias para ficar em Sampa, sem a paranóia de reuniões e trânsito. E como boa glutona que sou, já tenho em mente um roteiro gastronômico de delícias imperdíveis na Capital, daquelas que não deixo de fazer quando estou na minha cidade do coração. Fiz uma listinha, que gostaria de compartilhar com vocês:

Top 10 Delícias gastronômicas de Sampa

1. Pastel da Maria - Feira do Pacaembú
Os campineiros detestam ouvir isso, mas o autêntico pastel de feira, só em Sampa. Já experimentei vários em Campinas mas nenhum chega aos pés do meu favorito, que é da barraca da Maria, na feira do Pacaembú. Se for pra citar um bom pastel em Campinas, escolho o do Voga.

2. Mil Folhas da Dulca
Eu que não sou muito de doces não resisto a esse mil folhas, é levíssimo com recheio farto e muito fresco.

3. Terrine Lox do AK Delicatessen
Na rostisserie do AK, restaurante especializado em comida judaica da chef Andrea Kaufman, pode-se encontrar delícias como esta terrine, que é um enformado de salmão defumado, recheado com cream cheese, patê de ovos, cebola roxa e dill. Sempre dou uma passada lá e levo um pra casa...

4. Filé ao Alho do Filet do Moraes
Tradicionalíssimo restaurante na Praça Júlio de Mesquita, serve cortes gigantescos de filé mignon, daqueles de cortar com a colher de tão macios. A minha versão favorita é com alho e brócolis, que vem com uma montanha de alho frito. Além dos maravilhosos filés, os croquetes de entrada são divinos. Gosto de lá não só pela comida, mas porque meu falecido avô costumava me levar lá quando eu era pequena, o que me traz boas lembranças dele.

5. Compras no Santa Luzia
Todo gourmet que se preze gosta muito de se perder nesses mercados especializados em iguarias gastronômicas. Comigo não é diferente, posso passar horas nos corredores, escolhendo comidinhas e ingredientes que não se encontram por aí. Para quem tem afinidade com as panelas, é uma dica de passeio.

7. Buffet do Folha de Uva
Restaurante de cozinha árabe da Rua Bela Cintra, é daqueles que a gente se esbalda de comer. Tudo é muito bem feito, com ingredientes fresquíssimos, das pastas e pratos frios a grelhados como a kafta e o cordeiro. Não é uma pechincha, mas a relação custo x benefício é excelente - R$ 35.

8. Buffet do Ráscal
Campinas precisava ter um restaurante desta rede. Inúmeras iguarias no buffet, como alcachofras, salmão defumado, atum fresco, presunto parma, cogumelos grelhados, risotos, raviole com queijo de cabra e assim vai. As saladas são elaboradíssimas, assim como as massas, feitas na hora. O preço por pessoa reflete esta qualidade toda - R$ 50 - mas vale muitíssimo à pena.

9. Bauru do Ponto Chic
O famoso sanduíche não tem um segredo guardado a sete chaves. Segundo os proprietários, o que faz deste Bauru um sucesso nacional é a mistura de queijos que, quando fundidos, formam um creme com textura aveludade. Além da quantidade, que transborda pelo pão... gosto do Ponto Chic que fica bem no centro, pois aproveito para passar por lá depois do meu passeio pela Galeria do Rock, lugar que eu amo.

10. Empanada de Carne do Empanadas
O Empanadas é um boteco muito querido na Vila Madalena, está sempre cheio. A fórmula do sucesso é simples: cerveja gelada e empanadas maravilhosas, que não param de sair da cozinha. A de carne é a melhor, com massa bem fininha e recheio úmido. Melhor que essa, só na La Estancia de Buenos Aires...

Foi difícil reunir em uma lista de 10 itens os meus favoritos, são muitas as maravilhas gastronômicas dessa cidade. Mas acho que fui fiel aos que gosto muito e dos quais não abro mão quando estou em Sampa.

E você, também teêm fissura por alguma comida ou lugar em Sampa? Quem quiser compartilhar, os comentários estão abertos para discussões.

O blog vai continuar em Sampa por mais alguns dias e, depois, NY NY... Prometo um roteiro gastronômico na Big Apple do tamanho que os leitores deste blog merecem.