domingo, 3 de junho de 2012

Warong: decepção...

Depois de muito ensaiar, finalmente fui conhecer o Warong, restaurante tradicional de Holambra, conhecido por servir pratos da cozinha holandesa e indonésia. A casa existe desde 1988 e tem como objetivo oferecer o que as cozinhas destes dois países têm de melhor. Você pode estar se perguntando por que misturar duas culinárias aparentemente tão distintas, porém a Indonésia - ou a maioria de seu arquipélago - foi colonizada pelos holandeses e sua cozinha passou a ser apreciada e difundida além de suas ilhas.
A área externa é bem agradável para um dia como este. O salão interno é confortável e espaçoso.

Confesso que estava entusiasmada para experimentar pratos do cardápio indonésio, já que os sabores do sudeste asiático me fascinam há algum tempo, principalmente pelo uso de ingredientes exóticos para o nosso paladar, ricos em aromas e extremos em contrastes. O fato do cardápio listar apenas três opções de pratos indonésios não chegou a me desanimar, já que um deles - O Rijsttafel - era descrito como um verdadeiro "banquete indonésio, uma farta mesa com sabores raros e magníficos", composto por nove (!) pratos, para serem divididos em duas pessoas: Gado Gado, uma salada de legumes cozidos com molho de amendoim; Rijst, o arroz - que é a base de qualquer refeição indonésia; Ayam Kerrie, frango ao curry; Baby Ketjap, pernil de porco cozido no molho de soja; Ikan Jahe, um badejo empanado ao molho de gengibre; Satay Met Pindasaus, cubos de filé mignon grelhados no espeto com molho de amendoim; Udang Santan, o camarão no leite de côco; Rempah, bolinho de carne com côco; Krupuk, um mandiopã de camarão. Ufa! O maridão preferiu escolher um prato do cardápio holandês e ficou com o filé Alkmaar, um corte alto de filé mignon com molho de queijos fundidos e batatas selvagens. Os pratos no almoço dão direito ao salad bar, uma mesa com poucas opções de saladas e duas sopas.

O filé chegou e era realmente alto, com abundante molho de queijo e batatas bolinha bem coradas, uma bela apresentação. O ponto também estava corretíssimo, muito mal passado como de costume.

Já quando a atendente começou a dispor as travessas do meu "banquete indonésio" sobre o rechaud, notei que algo estava estranho... a apresentação era paupérrima, pareciam porções de acompanhamento de churrascaria, sem nenhum apelo estético ou decoração e, o que é pior, sem aroma nenhum. Aquelas travessas não eram condizentes com a descrição do tal banquete, nem com o que eu conheço da culinária indonésia. Respirei fundo e tentei minimizar aquela primeira impressão, talvez o sabor pudesse me surpreender. Ledo engano, o que se sucedeu foi uma tremenda decepção, a qual faço questão de descrever em detalhes, prato por prato:


Gado Gado: simplesmente não veio com o "banquete", quando questionei a falta do prato, a garçonete me disse que, durante o almoço, o Gado Gado não entra na composição do prato pois há o salad bar à disposição. Oi? Que raio de explicação é essa??

Rijst: arroz branco e arroz temperado exatamente iguais ao nosso arroz brasileiro, aquele que acompanha nosso feijão do dia a dia.

Ayam Kerrie ou frango ao curry: não vou nem comentar o uso do curry indiano, em pó, aquele amarelo. Diferentes países utilizam diferentes curries em suas receitas e o utilizado na Indonésia, definitivamente, não é este. Porém, o que mais me incomodou foi o fato do frango estar mal passado, bem rosado perto do osso, inclusive no corte do peito. Nem comi...

Baby Ketjap: o pernil cozido no molho de soja estava extremamente salgado. Obviamente, ao se utilizar o shoyu para o cozimento de uma carne é preciso ter cuidado com o ponto do sal, senão fica intragável mesmo...

Ikan Jahe: o badejo empanado ao molho de gengibre talvez tenha sido o que mais me irritou, o peixe não era badejo e tão pouco era fresco, empanado e frito de forma grosseira . O molho era de tomate, daqueles enlatados, com uma lasca de gengibre. Uma lástima, sinceramente.

Satay Met Pindasaus: os espetinhos de filé mignon não seriam ruins se não fosse pelo absurdo do "molho de amendoim". Faço questão de postar a foto do que eles chamam de "molho de amendoim". Façam-me o favor!


Udang Santan: os camarões no leite de côco eram daqueles mini camarões congelados, comumente utilizados para molhos. Sem mais.

Rempah: bolinho de carne com côco, talvez a única opção que me deu algum prazer naquela refeição...

Krupuk: mandiopã de camarão, deveria ser cortesia tamanha sua simplicidade (tem um pub em Campinas que distribui porções generosas do salgadinho, gratuitamente, aos seus clientes)

Em suma, há tempos eu não me sentia tão incomodada com uma refeição mal feita. Não é uma questão de ajuste de expectativas, uma vez que o próprio restaurante atesta sua expertise em culinária indonésia. Mas o que eu vi naquele "banquete" foi um tremendo desrespeito ao comensal, primeiro pelo fato de não ter sido utilizado um único ingrediente autêntico da culinária indonésia; segundo, por servir algo totalmente incondizente com a proposta de uma culinária tão rica em sabores como a do arquipélago asiático em questão. Terceiro, por subestimar o conhecimento alheio, servindo um prato deste nível e cobrando 105 reais por ele.

A atendente chegou a perguntar se havíamos gostado do prato e eu, obviamente, disse que não, mas não quis me extender em comentários e argumentos, já que a moça nada tinha a ver com a cozinha. Mas o pior de tudo foi perceber o descaso da gerência, uma vez que a atendente me disse que havia reportado minhas críticas à responsável mas, em nenhum momento, alguém veio até a mesa saber o que havia me desagradado, ou se justificar, ou discutir, nada! O que eu espero de um restaurante que tem como missão "servir produtos com qualidade e sofisticação" e "oferecer excelência de produto e atendimento" é, no mínimo, que alguém tenha a decência de se preocupar com a opinião de um cliente, não apenas através de um cartão de feedback, mas sim prontificando-se a ouvir as críticas no momento em que elas surgem e são externadas. Talvez eles mesmos saibam que aquele prato é um ultraje e, por isso mesmo, não querem nem ouvir o que o cliente tem a dizer a respeito.

Sinceramente, os pratos do cardápio holandês parecem ser ótimos, bem executados e corretíssimos. Vi um joelho de porco espetacular sendo servido na mesa ao lado. O filé do maridão estava excelente. De coração, minha sugestão é que aquelas páginas do cardápio com conteúdo indonésio sejam arrancadas, assim o Warong pode focar naquilo que sabe fazer e não ter o grande demérito de servir um prato péssimo como o que eu experimentei naquele almoço. Lamentável.


Warong - Restaurante Indonésio Holandês www.warongbrasil.com.br Rua Campo de Pouso, 607 - Holambra Fone: (19) 3802-1495

domingo, 22 de abril de 2012

Arola Vintetres: o melhor espanhol do Brasil



Dia desses mamãe me encaminhou um e-mail sobre um wine dinner no premiado Arola Vintetres, eleito por inúmeras publicações o melhor restaurante espanhol do Brasil, do premiadíssimo chef catalão Sergi Arola. Com vinhos da vinícola Pujanza, da região de Rioja, na Espanha, o menu parecia muito interessante, por isso não pensamos duas vezes e fizemos nossas reservas.

O lugar por si só já é um espetáculo: localizado no vigésimo terceiro andar do hotel Tivoli Mofarrej, na Alameda Santos, o restaurante é todo envidraçado, o que permite que os comensais desfrutem de uma belíssima vista de Sampa. A cozinha do chef Arola - que possui duas estrelas no Guia Michelin e outras 5 casas espalhadas pelo mundo - é de vanguarda, inventiva e inovadora, coisa autoral mesmo. Em suas "tapas gourmet" é possível encontrar muita técnica aliada a uma boa dose de criatividade. No nosso menu, opções como batatas bravas, gazpacho, carré de cordeiro e lombo de vitela ganhariam novas definições após aquele jantar que prometia ser, no mínimo, fora de série.

Vista da nossa mesa

Como chegamos no horário marcado, pudemos nos sentar em uma mesa junto à janela. As taças da degustação já estavam a postos e o serviço não demorou a nos trazer o couvert, acompanhado do primeiro vinho da noite: Dios Ares Blanco 2009. Couvert simples mas com ótimos pães, patê e manteiga de creme de leite, mais leve e aerada. Flor de sal com pimenta para complementar a ótima manteiga.



Aos poucos, as entradas eram servidas, primeiro o chupito de gazpacho, que nada mais era do que um shot da sopa fria (adoro o fato de que os espanhóis não se utilizam de anglicismos e acabam por criar ótimos termos para expressões que, normalmente, usamos em inglês). Pena que era só um shot, porque o gazpacho estava como deve ser: fresco, saboroso e ácido na medida certa.



Em seguida, as batatas bravas "Arola", deliciosos cilindros de batatas crocantes, com batatas cremosas em seu interior e cobertas por aioli - aquela maionese de alho e azeite de oliva. Bocaditos do céu...



Para encerrar as entradas, ceviche de pescada amarela com cebola roxa, abacate e ar de tomate - sim, chegei a temer que a cozinha enveredasse pelo caminho tecnoemocional, com seus ares, espumas e desconstruções que, por vezes, me cansam. Mas não, foi só o ar de tomate mesmo que, no final das contas, tinha sua função no prato. O peixe era fresquíssimo e combinava muito bem com a cebola, os cubinhos de abacate e até com o ar de tomate que, pasmem, tinha gosto de tomate mesmo. Só não amei a escolha do peixe para o ceviche, acho que a pescada amarela não é tão sutil em termos de sabor e textura quanto outros peixes para ceviche, mas nada que a desabone.



Na sequência do menu, o prato seguinte foi o carré de cordeiro com mil folhas de mandioquinha e ervilha torta. Confesso que não estava muito ansiosa pelo prato, já que carré de cordeiro é algo que encontramos facilmente por aí. Mas quando experimentei o primeiro pedaço da carne, percebi que nunca havia provado um cordeiro com uma textura sequer semelhante àquela. Parecia que a gordura havia penetrado na carne, provavelmente em um processo de cozimento bem lento, conferindo um misto de maciez e sabor perfeitos. O mil folhas de mandioquinha também era surpreendente, com inúmeras fatias de mandioquinha com espessura de folha de papel que, no conjunto, tornavam-se cremosas e macias. Sorte que mamãe não é muito chegada em cordeiro e eu surrupiei seu carré, para meu completo deleite... carré muito bem acompanhado de duas opções de tintos, um Dios Ares Crianza 2006 e um Dios Ares Reserva 2006, ambos 100% Tempranillo.



O segundo prato, um lombo de vitela com crocante de castanha do Pará com purê de abóbora e manga já despertava meu interesse diante do excelente desempenho do cordeiro. Mas não imaginava que minhas expectativas seriam novamente superadas: a carne, cortada em fatias de média espessura, também tinha textura perfeita e sabor rico. O crocante de castanha dava o contraste perfeito com a carne que derretia na boca. O puré de abóbora com manga surpreendeu pela combinação dos dois ingredientes, que pode soar inusitada em um primeiro momento mas, a cada garfada, mostrou-se equilibradíssima. Além do ótimo tinto Pujanza 2007, um mimo surpresa: Pujanza Norte 2006, o vinho top da vinícola espanhola, 60% tempranillo e 40% de castas variadas, passa 18 meses em barricas de carvalho. Não à toa foi cotado com 94 pontos no Parker e uma garrafa não sai por menos de 350 reais.



Satisfeitíssimas com o jantar - e um tanto alcoolizadas, verdade seja dita - ainda faltava experimentar a sobremesa, torrijas com espuma de chocolate (olha a espuma aí) e sorvete de nata com farofa crocante de baru - uma castanha cujo sabor lembra o amendoim. Torrijas são as rabanadas espanholas, que podem ser feitas com pães de forma ou caseiros e levam leite, açúcar e canela na versão original. Mas esta torrija que experimentamos não estava lá essas coisas, acabou sendo o ponto fraco do jantar, já que estava um pouco dura e ressecada. Nem o ótimo sorvete de nata pode ajudar...



O balanço final do jantar foi super positivo, o restaurante é de altíssima qualidade, além de um lugar lindíssimo. Gostei muito de conhecer a cozinha de um chef tão renomado e premiado como o Sergi Arola, representada com maestria pelo chef Fabio Andrade na casa paulistana. Definitivamente, um lugar que recomendo, dentre tantas boas opções em Sampa, sobretudo para ocasiões especiais.



Arola Vintetres

Tivoli São Paulo - Mofarrej
Alameda Santos, 1437 - Jardins
Fone: (11) 3146 5923
www.arolavintetres.com.br

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Vida longa ao Meme Cambuí

Já fazia um tempo que ouvia comentários sobre o Meme e a vontade de conhecer foi ficando cada vez maior. Inclusive, o termo meme, assim como o próprio estabelecimento o define, significa uma ideia, comportamento, estilo ou hábito espalhado culturalmente de pessoa a pessoa. Talvez não por acaso fiquei sabendo do Meme através do bom e velho boca a boca e, pelo que pude notar, essa é a forma de divulgação que a casa quer ter.



A casa é pequena e tem estilo minimalista, com salão decorado com o essencial, aliando estética à funcionalidade. O estilo também pode ser percebido no menu e nos pratos que saem da cozinha, definida como moderna. Poucos pratos compoem o menu, mas encontra-se de tudo entre as opções de entradas, principais e sobremesas. A carta de vinhos também é sucinta, porém com preço honesto.

Já tinha dado uma olhada no cardápio pela internet e já fui com minhas escolhas feitas. De entrada, o salmão marinado por 48h; para o maridão, filé mignon selado em crosta de trompetas negras - uma variedade de cogumelo - com lentilhas. Para os principais, escolhi o peito de pato com risotto de arroz negro e pupunha e o maridão foi de filé mignon com batatas pont neuf, tutano e molho de vinho tinto.

A espera pelos pratos foi muito agradável por conta do couvert, que há muito não via de forma tão inovadora e surpreendente, apesar dos ingredientes simples: uma redução de vinagre de vinho tinto que, combinada ao Dukkah - uma farofinha de avelã e especiarias - me fez comer umas 10 fatias do pão da casa. Além de uma ótima tappenade de azeitonas pretas (um tipo de pesto), o couvert ainda tinha uma manteiga de ótima qualidade, feita lá mesmo, com sal marinho inglês. Como é bom ver pequenas coisas serem valorizadas, uma casa que faz sua própria manteiga merece crédito...

Inovador

As entradas vieram sem muita demora e com bela apresentação. O salmão marinado veio em 4 fatias, acompanhado de filetes de maçã verde, mini folhas e redução de maracujá. Apesar de finas, as fatias tinham sabor intenso, algo defumado, uma entrada interessante e delicada. O filé mignon também veio em pequenas fatias enfileiradas, com sabor intenso dos cogumelos, em harmonia com as lentilhas e o molho teriaky.





As entradas deram um indício do que estaria por vir e nossas expectativas se confirmaram: a montagem dos pratos era belíssima e a quantidade surpreendeu. Meu pato era composto por mais de uma dúzia de tenras fatias de peito, no ponto correto, regadas por um glacê de balsâmico com maracujá, sobre ótimo risotto de arroz negro. Todos os contrastes estavam presentes, a escolha dos ingredientes do prato foi muito feliz e a execução, corretíssima. O filé mignon também veio em dois grandes pedaços, no ponto certo (mal passado) e fazia belo par com as batatas pont neuf (um tipo de corte que elimina as pontas arredondadas, deixando-a com esse aspecto retinho). Carne macia e saborosa, como um bom filé mignon deve ser.

Pato farto!

Carne ultra macia

Satisfeitíssimos porém com sede de novidades, queríamos experimentar uma sobremesa. Os mini churros pareciam uma boa pedida, mas quando o atendente nos ofereceu a opção do brownie com sorvete de capim santo, encasquetei que queria experimentar o sorvete. Perguntei se poderia trocar o sorvete de gengibre que acompanhava os mini churros pelo de capim santo e ele me disse que não haveria problemas. Felicidade completa quando a sobremesa chegou e notei que os dois sorvetes estavam ali, um melhor que o outro, além dos crocantes e sequíssimos churros em calda leve de chocolate. Valeu cada colheirada pecaminosa.

Os preços do Meme estão dentro da média para um restaurante deste padrão. Entradas variando entre 14 e 26 reais, principais que vão de 19 a 47 reais e sobremesas entre 10 e 14 reais. Durante a semana a casa também oferece boas opções no menu executivo de almoço a ótimo custo x benefício.

Espero que o Meme tenha vindo para ficar. Uma nova opção é sempre bem vinda, principalmente quando chega assim de mansinho, num esquema low profile e, de repente, te surpreende com uma ótima comida. Parabéns ao chef Frederico Bovolon e a sua competente brigada.



Meme Cambuí
www.memecambui.com.br
Rua Dona Josefina Sarmento, 313
fones: (19) 2121-5688, 3304-5528

segunda-feira, 2 de abril de 2012

La Palette - finalmente!



Dia desses, recebi um convite que me deixou muito feliz - e um pouco surpresa, confesso - para participar de um almoço no La Palette, bistrô localizado no interior do Royal Palm Plaza que, por acaso, é meu restaurante favorito em Campinas. O almoço seria exclusivo para a imprensa - sim, I'm press! - e o objetivo era apresentar o cardápio de outono que estará disponível durante o próximo trimestre, como parte do Festival Quatre Saisons - um menu degustação que varia a cada três meses, de acordo com a estações do ano. Composto por couvert, entrada, primeiro prato, prato principal, sobremesa, café e petit-fours, o menu tem valor de 110 reais por pessoa (bebidas e serviço não inclusos).

Minha surpresa ao receber o convite deve-se à constatação de que, cada vez mais, as pessoas dão credibilidade à opinião de blogueiros que se propõem a falar sobre determinado assunto e que se mostram isentos e imparciais em seus relatos. Talvez estas pessoas que lêem o meu e tantos outros blogs estejam realmente à procura de autenticidade e não de um texto tendencioso, tão recorrente em jornais ou revistas que vendem suas matérias. Isso dá uma motivação extra para continuar com este espaço que nada mais é do que um grande hobby para mim, que me proporciona sim muito prazer, mas também dá um bocado de trabalho!

Voltando ao que interessa, após um breve adendo, lá fui eu rumo ao hotel, de máquina em punho e muita vontade de conhecer o que o competentíssimo chef Daniel Valay preparara para seus "convidados". As opções do menu eu já havia recebido por e-mail, além de um release sobre o La Palette e sobre o próprio chef Daniel Valay.

Ainda não tinha tido a oportunidade de ir ao bistrô após a renovação e nem precisei entrar para perceber a enorme mudança de visual: o salão ganhou muito em espaço e amplitude, sem colunas ou paredes dividindo os ambientes; os janelões permitem que o belo jardim externo contribua com a ambientação; piso de madeira, mesas sem toalhas, confortáveis poltronas e tons neutros deixaram o lugar com ares contemporâneos, bem adequado à proposta da cozinha, de culinária francesa contemporânea. Nos bastidores, sob a tutela do chef executivo, o jovem chef Rafael é o segundo homem na cozinha do La Palette e faz jus ao crédito nele depositado.



O mais legal deste almoço foi poder observar o chef finalizando os pratos bem ali na nossa frente. Antes de iniciar os trabalhos, ele nos explicou sobre a escolha dos ingredientes que compõem o menu, priorizando os alimentos frescos, sazonais e de produção local, encontrados em abundância e a preços mais acessíveis na região. A elaboração das receitas também leva em conta a estação e seu clima, por isso no menu de outono encontramos pratos como a bouillabaisse, um tipo de sopa creme originário da região de Marselha servido com peixes e frutos do mar, ideal para ser degustado no clima ameno.

Após o couvert, com pães fresquíssimos, manteiga de primeira com flor de sal e queijo boursin com ervas, o chef montou as entradas: Cappuccino de cogumelos, um creme bem aerado, levíssimo e de sabor sutil.





Para o primeiro prato, a Bouillabaisse, o chef dispôs todos os ingredientes no prato, como o robalo, mexilhão, polvo, lagostin, batatas, cenoura e, só depois, despejou o creme. O resultado é um prato com frutos do mar em perfeito ponto de cozimento, um creme denso e extremamente saboroso, condimentado com sutileza.

O chef finalizando o prato e...

... a obra de arte pronta!

Para o prato principal, o chef escolheu um bife de ancho com molho de estragão, purê de mandioquinha e ervilha torta. Eu, que não sou fã de estragão (uma das raríssimas coisas que não me encanta em termos de comida), mal percebi sua presença no molho. Isso porque o chef soube utilizar a erva com a parcimônia que ela exige. A carne, apesar de não estar no ponto que eu considero ideal, era extremamente macia e saborosa - esta última característica potencializada pelos cristais de flor de sal (seriam de Guerande, terra natal do chef e origem da melhor Fleur de Sel do mundo?) e pelo ótimo molho jus - feito com o próprio suco resultante do cozimento da carne. Bom contraste com o aveludado do purê de mandioquinha e a leve crocância das ervilhas tortas cozidas al dente.





Bom, nem seria necessária uma sobremesa para me deixar em êxtase, mas o chef mostrou que não nega às origens e nos presenteou com uma finíssima torta de maçã, acompanhada de creme fraîche - um creme fresco batido a um ponto antes do chantilly e sem açúcar - montada sobre creme de baunilha. Quem me conhece sabe que não sou formiga e costumo nem ligar para a sobremesa, mas essa estava sublime. Arrisco a dizer que roubou a cena... espetáculo! Ah, como é bom o sabor da baunilha de verdade, tão diferente das essências que encontramos por aí.

Os pontinhos pretos no creme atestam a utilização de baunilha de verdade...

Além do banquete executado à perfeição, pudemos degustar três ótimos vinhos - franceses, obviamente - que fazem parte da premiada carta do bistrô.

Não só recomendo o La Palette como volto a afirmar que trata-se de uma importantíssima referência gastronômica do interior paulista e, na minha opinião, o melhor da cidade. Imperdível.

Obrigada à Kátia Nunes, da Canal de Comunicação, pelo convite; à Bianca Frari, da Canal de Comunicação, pela recepção e companhia durante o almoço; e ao Manuel Alves Filho, autor do blog Toque de Chef, pela indicação.

Festival Quatre Saisons - Menu de Outono
Disponível de abril a junho no bistrô La Palette
reservas: (19) 2117-4203
Av. Royal Palm Plaza, 277 - Jd. Califórnia
Funcionamento: de quinta a sábado, das 19h às 23h

segunda-feira, 26 de março de 2012

Minhas percepções: Restaurant Week 2012



Não sei vocês, mas eu fiquei sabendo da edição deste ano do Restaurant Week bem por acaso, ao ler um post de um dos restaurantes participantes no Facebook. Depois, os grandes portais como UOL e Terra mencionaram o evento, obviamente com foco na capital. Mas fora isso, não percebi nenhum burburinho em torno do assunto, nem mesmo nas rodas de conversa dos aficcionados por gastronomia na cidade. Fiquei sem entender por que os próprios restaurantes não demonstraram tanto entusiasmo em divulgar a participação no evento, sendo que a grande vantagem é atrair volume maior de clientes, já que o preço que se paga pela refeição é menor. Entendo que o fator divulgação deva pesar bastante na decisão de um estabelecimento ao aceitar participar do evento, mesmo porque o aumento de clientes não deve ser proporcional ao aumento do faturamento. Outra diferença com relação ao ano passado foi a tranquilidade para fazer as reservas, me pareceu que a demanda foi bem menor que em 2011, quando a maioria dos restaurantes tinham todos os lugares reservados com certa antecedência.

Anyway, não fui atrás de nenhum dado que comprove numericamente o que falei aí em cima pois não se trata de uma afirmação sobre o evento, mas sim um relato sobre a minha percepção, única e exclusivamente, do meu ponto de vista.

Passados os devaneios, vamos ao que interessa: durante o evento, visitamos o Gallo Nero durante um almoço, o Esquinica em um jantar e o Cayenna também durante o almoço. Dentre as opções de estabelecimentos participantes, teria escolhido outros caso tivesse mais tempo (ou fosse melhor organizada), como o Casa de Maria, Conte, L'Alouette e Duo, por saber que têm ótima cozinha; o Estação Marupiara e o Vila Paraíso, pela curiosidade e oportunidade de conhecer por um preço bem camarada. Alguns definitvamente não seriam minhas opções, mas prefiro não levantar polêmica neste post, minha opinião já é conhecida dos leitores deste blog.

Primeira visita: Gallo Nero (almoço)



Sinto desapontar quem esperava que eu fosse falar das opções do menu do evento, mas o que se passou neste restaurante foi que descobri uma das melhores opções de almoço da cidade, em termos de custo x benefício, não só durante o evento! Eles oferecem um menú degustação no almoço de segunda à sexta, chamado menú corrido, que inclui ótimas opções que variam a cada dia, pelo valor fixo de R$ 34,80. Ou seja, couvert, salada (farta) e seis pratos que podem ser repetidos! Na verdade, as seis opções não são servidas à francesa, cada uma em sua louça, naquele esquema interminável em que o garçom põe e tira prato após prato da sua frente. É simples, após o couvert e a salada, os garçons trazem da cozinha os pratos do dia nas próprias frigideiras em que são feitos, para serem servidos em pequenas quantidades aos comensais. O legal é que pode-se pedir repeteco de qualquer coisa, quantas vezes quiser. E acreditem, vai ser difícil querer repetir, porque é muita comida até para alguém com um apetite como o meu! Diante dessa barganha, não tive a menor vontade de experimentar o menú do evento... mas pelo menos vou falar de algo que vale muito à pena!

A cada dia da semana as opções de pratos mudam. No dia da visita, uma quarta-feira, as opções eram risoto de abóbora, filé de lombo grelhado, farfalle ao funghi, papardelle com molho sugo e calabresa, abadejo com champignons e abobrinha assada. A salada era simples, somente com folhas e tomate, mas de tão fresca chegava a estalar. O couvert trazia abobrinhas marinadas, berinjela e azeitonas chilenas, além de ótimas torradas de pão italiano.

Couvert...

... e salada, para abrir os trabalhos.

Os garçons parecem usar alguma lógica na sequência do que é servido, mas nada que interfira na dinâmica da "degustação": primeiro, o risoto de abóbora e, com ele, o filé de lombo, fazendo um bom par no prato. O risoto estava correto e saboroso e o filé de lombo era macio e com aquela gordura necessária para deixar a carne do porco bem saborosa.



Em seguida, foram colocados em meu prato o farfalle com funghi e a abobrinha, tudo sem a menor cerimônia, bem casual mesmo. A massa era simples mas bem feita, com boa quantidade de funghi. A abobrinha era delicada, com uma camada crocante por cima, tipo um farelo de pão, que era gratinada.





Quando consegui abrir algum espaço no prato, lá veio o garçom de novo, desta vez com o papardelle e o abadejo, um pouco de cada. O peixe estava com sabor de fresco e os cogumelos laminados fizeram boa companhia junto com o presunto, nada que comprometesse a delicadeza do pescado. Já o papardelle foi a estrela do menú, estava muito bom mesmo. A massa, apesar de larga - como o papardelle deve ser - tinha espessura fininha e gosto de massa caseira. O molho, uma combinação de sugo, calabresa moída e erva-doce, era perfeito para o tipo da massa e estava delicioso. Se eu tivesse condições de repetir algo, certamente seria o papardelle.

Peixe fresco

O melhor de todos

Fiquei realmente surpresa com o tal menú corrido do Gallo Nero, não só pela qualidade dos pratos - o que já era de se esperar deste restaurante - mas pela ótima relação custo x benefício.

A sobremesa não fazia parte do menú, mas como ir ao Gallo Nero e não comer cannoli, ainda mais em uma cidade onde a sobremesa é raridade? Estava gostoso, com casquinha bem crocante e recheio cremoso, mas senti falta de um pouco mais de açúcar no creme, isso porque não sou nenhuma formiga e até prefiro os doces-não-tão-doces, mas esse recheio pedia sim um pouco mais de doçura.

Canudos italianos

Em suma, o Gallo Nero é uma das melhores opções de almoço da cidade, sem sombra de dúvida.

Segunda visita: Esquinica (jantar)

Alguém aí pode estar se perguntando por que escolhi o Esquinica para o evento, já que estive por lá há pouco tempo, mas a resposta é a seguinte: difícil ir ao Esquinica e não pedir as ótimas tapas, então nada melhor que o incentivo do evento para experimentar um prato, mesmo que este não seja do menu fixo do restaurante. Pelo que já havíamos visto do Esquinica, a experiência não poderia ser ruim, de maneira nenhuma.

Para experimentar o máximo possível, eu e o maridão alternamos as escolhas do menu do evento, que trazia duas opções de entrada, duas de principal e duas de sobremesa - ou seja, provamos de tudo o que o Esquinica tinha para oferecer nesta edição do Restaurant Week. De entrada, gaspacho de tomates ou coca de vegetais, um tipo de pão recheado e assado com legumes e queijo manchego; nos principais, confit de pato com purê de batatas e azeitonas e tartar de salmão assado servido com farofa molhada; de sobremesas, sonho de doce de leite com sorvete de creme ou creme de chocolate com folha gelificada de frutas vermelhas.

O couvert era o mesmo de sempre, com o ótimo alho assado nadando em azeite virgem, azeitonas verdes gigantes, amêndoas torradas, parmesão em pedaços, pães e torradas.

Viciada nesse alho!

O salão estava vazio quando chegamos mas em questão de minutos ficou lotado. A grande maioria das mesas estava ocupada para o evento. Mas o que vimos foi um serviço ágil, atencioso e discreto, independente da lotação da casa.

As entradas vieram rápido, porém tivemos tempo para apreciar o couvert na companhia de um ótimo Carmenère - para a satisfação do nosso atendente, cuja origem era a mesma do vinho, o Chile.

O gaspacho estava excelente, na temperatura certa, com acidez correta e ótimo equilíbrio entre os ingredientes marcantes, como pepino, pimentão, tomate e salsão. O pão de vegetais também era saboroso, úmido e com textura macia, interessante.

Sopa gelada

Coca de vegetais

Os principais também não demoraram a chegar; a quantidade não era farta, mas o sabor e execução compensaram. O pato era saboroso, com carne macia, soltando do osso. O purezinho de batata e azeitona estava uma delícia, pena que era pouqinho... o tartar de salmão também estava saboroso e fazia bom par com a farofinha úmida, com bastante azeite, alho e cebola. Para ser melhor, só precisaria ser mais!

Coxinhas de pato

Tartar de salmão

Pedimos ao nosso atendente que desse um tempinho antes das sobremesas, para que pudéssemos terminar com o vinho. O ambiente estava descontraído no salão, com vozes em volume mais alto, mas sem incomodar, bem no estilo do Esquinica.

As sobremesas não desapontaram. O sonho era bem recheado e sequinho, nada melhor que um bom sorvete para acompanhá-lo. Já o creme de chocolate foi uma grata surpresa, não esperava que fosse tão bom! De textura super cremosa, foi servido geladinho. Em meio ao creme, pedacinhos de chocolate davam contraste na boca, além do azedinho da folha gelificada de frutas vermelhas. Delicioso! Espero que se torne item definitivo do cardápio...

Sweet dream...

Que entre para o cardápio!

Bom jantar, boa companhia, bom vinho e... ótimo preço! Taí algo que o evento faz de bom: média de 50 reais por pessoa (sem o vinho) no Esquinica é algo que, definitivamente, vale muito à pena.

Terceira visita: Cayena (almoço)



Para quem não se lembra, conheci o Cayena durante a última edição do evento e falei sobre a experiência aqui. Achei que o evento deste ano seria uma boa oportunidade de voltar ao lugar para ver o que melhorou e saber o que de bom eles iriam oferecer aos comensais. Gostei das opções do menu, mas confesso que o cardápio do jantar me atraiu mais. Apesar de ter reservado para sábado à noite, tive que desmarcar devido a outro compromisso, mas não quis deixar passar e fui durante o almoço mesmo.

As opções eram: tortilla de batatas, aspargos e bacalhau ou mini bracciola com purê de maçã nas entradas; penne com mignon ao molho de mostarda com ervas finas, rúcula e parmesão ou Panang Curry com arroz thai jasmine; de sobremesa, bolo de fubá cremoso com goiaba em calda ou cocada caminho das índias.

Mamãe preferiu um prato do menu fixo de almoço, um picadinho com ovo poché, acompanhado de arroz, couve e farofa. Eu fui de tortilla de batatas, Panang Curry - um prato de curry com mignon - e o tal bolo de fubá cremoso.

As opções de vinho eram limitadas, ainda mais em se tratando de meia garrafa ou em taça. Só nos restou o Malbec da mini garrafinha que equivale a uma taça, que não desapontou.

Minha entrada veio junto com a saladinha do prato da mamãe. A tortilla não estava ruim, porém a proporção de batata e ovo estava bem desequilibrada, fazendo com que ela se parecesse mais com um omelete do que com uma tortilla. O bacalhau apareceu pouco, mais em forma de alguns fiapos escassos do que em lascas ou pedaços. O aspargo enfeitava o topo. O resultado foi uma tortilla ressecada e desinteressante, que depois tive a oportunidade de ver que os pedaços prontos estavam enfileirados na cozinha, em cima da bancada, não eram feitos na hora - nem mesmo finalizados na hora.



Os pratos principais demoraram bastante, tempo demais para um almoço. Não nos passou despercebido que nossos pratos foram dados à mesa ao lado, mesmo porque as duas pessoas haviam escolhido pratos do menu do evento e o que vi foi um picadinho e um Pagang Curry sendo servidos ao nosso lado. O mais impressionante é que a pessoa que recebeu o picadinho não se manifestou em nenhum momento sobre o equívoco... até cheguei a pensar que seria apenas um problema de servir as mesas fora de ordem mas, quando fomos questionadas se aguardávamos pela sobremesa e, diante da nossa resposta, uma cozinheira furiosa saiu da cozinha para ver o que fora servido à mesa ao lado, tive certeza do que se passou. Uma infeliz coincidência, já que no evento do ano passado erros deste tipo aconteceram e cheguei a mencionar que era um problema decorrente da ocupação atípica influenciada pelos preços mais baixos, porém algo com o qual o restaurante tem que saber lidar quando opta por participar do evento.

Após uma longa espera, nossos pratos vieram. Logo de cara, notei uma falta de preocupação com a decoração do prato do evento, já que o picadinho estava ok. Não que seja fundamental, mas é sabido que também comemos com os olhos e um prato monocromático e desproporcional não é esteticamente atraente...

O curry estava saboroso, com carne macia e molho pouco picante, porém correto. O arroz estava perfeito, aglutinado como um thai jasmine deve ser. Enfim, um prato bem executado, só pecou mesmo na estética.



O picadinho empolgou de cara, porém a gema dura do ovo poché desanimou um pouco, a expectativa era ver uma gema dourada e cremosa escorrer sobre a carne. A quantidade também é pouca, tudo vem em mini-porções, a couve, a carne, a farofa... em termos de sabor, estava apenas ok.

Aspecto bom...

... porém gema dura!

Já não estava lá muito entusiasmada com a sobremesa, mesmo porque sabia que mamãe iria fazer aqueles olhos pidões e eu teria que dar tudo pra ela. O bolinho de fubá, que prometia ser cremoso, tinha apenas uma camada cremosa em seu interior, mas estava gostoso, combinava bem com a goiaba em calda.

Bolinho da mamãe...

O preço dos pratos do almoço é bastante atraente, algo entre 20 e 30 reais, porém as quantidades são bem pequenas. Com relação ao evento, sinto dizer que não vou pagar para ver de novo em uma próxima edição. Quero sim voltar ao Cayena em uma nova oportunidade pois sei que há um bom trabalho por trás do cardápio, da escolha dos ingredientes e comando da cozinha pela chef Manuella Delatorre. O que não quero é sofrer com os tropeços que podem ocorrer em dias de casa lotada, prefiro conhecer o que o Cayena tem de bom sem o corre-corre do evento.

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Gallo Nero Ristorante
R. Maria Monteiro, 59
Tel.: (19) 3308-5711

Esquinica
Av. José de Souza Campos, 425
Hotel Vitória
Tel.: (19) 3755-8000

Cayena Bistrô
R. Capitão Francisco de Paula, 264
Tel.: (19) 3385-3033