segunda-feira, 26 de março de 2012

Minhas percepções: Restaurant Week 2012



Não sei vocês, mas eu fiquei sabendo da edição deste ano do Restaurant Week bem por acaso, ao ler um post de um dos restaurantes participantes no Facebook. Depois, os grandes portais como UOL e Terra mencionaram o evento, obviamente com foco na capital. Mas fora isso, não percebi nenhum burburinho em torno do assunto, nem mesmo nas rodas de conversa dos aficcionados por gastronomia na cidade. Fiquei sem entender por que os próprios restaurantes não demonstraram tanto entusiasmo em divulgar a participação no evento, sendo que a grande vantagem é atrair volume maior de clientes, já que o preço que se paga pela refeição é menor. Entendo que o fator divulgação deva pesar bastante na decisão de um estabelecimento ao aceitar participar do evento, mesmo porque o aumento de clientes não deve ser proporcional ao aumento do faturamento. Outra diferença com relação ao ano passado foi a tranquilidade para fazer as reservas, me pareceu que a demanda foi bem menor que em 2011, quando a maioria dos restaurantes tinham todos os lugares reservados com certa antecedência.

Anyway, não fui atrás de nenhum dado que comprove numericamente o que falei aí em cima pois não se trata de uma afirmação sobre o evento, mas sim um relato sobre a minha percepção, única e exclusivamente, do meu ponto de vista.

Passados os devaneios, vamos ao que interessa: durante o evento, visitamos o Gallo Nero durante um almoço, o Esquinica em um jantar e o Cayenna também durante o almoço. Dentre as opções de estabelecimentos participantes, teria escolhido outros caso tivesse mais tempo (ou fosse melhor organizada), como o Casa de Maria, Conte, L'Alouette e Duo, por saber que têm ótima cozinha; o Estação Marupiara e o Vila Paraíso, pela curiosidade e oportunidade de conhecer por um preço bem camarada. Alguns definitvamente não seriam minhas opções, mas prefiro não levantar polêmica neste post, minha opinião já é conhecida dos leitores deste blog.

Primeira visita: Gallo Nero (almoço)



Sinto desapontar quem esperava que eu fosse falar das opções do menu do evento, mas o que se passou neste restaurante foi que descobri uma das melhores opções de almoço da cidade, em termos de custo x benefício, não só durante o evento! Eles oferecem um menú degustação no almoço de segunda à sexta, chamado menú corrido, que inclui ótimas opções que variam a cada dia, pelo valor fixo de R$ 34,80. Ou seja, couvert, salada (farta) e seis pratos que podem ser repetidos! Na verdade, as seis opções não são servidas à francesa, cada uma em sua louça, naquele esquema interminável em que o garçom põe e tira prato após prato da sua frente. É simples, após o couvert e a salada, os garçons trazem da cozinha os pratos do dia nas próprias frigideiras em que são feitos, para serem servidos em pequenas quantidades aos comensais. O legal é que pode-se pedir repeteco de qualquer coisa, quantas vezes quiser. E acreditem, vai ser difícil querer repetir, porque é muita comida até para alguém com um apetite como o meu! Diante dessa barganha, não tive a menor vontade de experimentar o menú do evento... mas pelo menos vou falar de algo que vale muito à pena!

A cada dia da semana as opções de pratos mudam. No dia da visita, uma quarta-feira, as opções eram risoto de abóbora, filé de lombo grelhado, farfalle ao funghi, papardelle com molho sugo e calabresa, abadejo com champignons e abobrinha assada. A salada era simples, somente com folhas e tomate, mas de tão fresca chegava a estalar. O couvert trazia abobrinhas marinadas, berinjela e azeitonas chilenas, além de ótimas torradas de pão italiano.

Couvert...

... e salada, para abrir os trabalhos.

Os garçons parecem usar alguma lógica na sequência do que é servido, mas nada que interfira na dinâmica da "degustação": primeiro, o risoto de abóbora e, com ele, o filé de lombo, fazendo um bom par no prato. O risoto estava correto e saboroso e o filé de lombo era macio e com aquela gordura necessária para deixar a carne do porco bem saborosa.



Em seguida, foram colocados em meu prato o farfalle com funghi e a abobrinha, tudo sem a menor cerimônia, bem casual mesmo. A massa era simples mas bem feita, com boa quantidade de funghi. A abobrinha era delicada, com uma camada crocante por cima, tipo um farelo de pão, que era gratinada.





Quando consegui abrir algum espaço no prato, lá veio o garçom de novo, desta vez com o papardelle e o abadejo, um pouco de cada. O peixe estava com sabor de fresco e os cogumelos laminados fizeram boa companhia junto com o presunto, nada que comprometesse a delicadeza do pescado. Já o papardelle foi a estrela do menú, estava muito bom mesmo. A massa, apesar de larga - como o papardelle deve ser - tinha espessura fininha e gosto de massa caseira. O molho, uma combinação de sugo, calabresa moída e erva-doce, era perfeito para o tipo da massa e estava delicioso. Se eu tivesse condições de repetir algo, certamente seria o papardelle.

Peixe fresco

O melhor de todos

Fiquei realmente surpresa com o tal menú corrido do Gallo Nero, não só pela qualidade dos pratos - o que já era de se esperar deste restaurante - mas pela ótima relação custo x benefício.

A sobremesa não fazia parte do menú, mas como ir ao Gallo Nero e não comer cannoli, ainda mais em uma cidade onde a sobremesa é raridade? Estava gostoso, com casquinha bem crocante e recheio cremoso, mas senti falta de um pouco mais de açúcar no creme, isso porque não sou nenhuma formiga e até prefiro os doces-não-tão-doces, mas esse recheio pedia sim um pouco mais de doçura.

Canudos italianos

Em suma, o Gallo Nero é uma das melhores opções de almoço da cidade, sem sombra de dúvida.

Segunda visita: Esquinica (jantar)

Alguém aí pode estar se perguntando por que escolhi o Esquinica para o evento, já que estive por lá há pouco tempo, mas a resposta é a seguinte: difícil ir ao Esquinica e não pedir as ótimas tapas, então nada melhor que o incentivo do evento para experimentar um prato, mesmo que este não seja do menu fixo do restaurante. Pelo que já havíamos visto do Esquinica, a experiência não poderia ser ruim, de maneira nenhuma.

Para experimentar o máximo possível, eu e o maridão alternamos as escolhas do menu do evento, que trazia duas opções de entrada, duas de principal e duas de sobremesa - ou seja, provamos de tudo o que o Esquinica tinha para oferecer nesta edição do Restaurant Week. De entrada, gaspacho de tomates ou coca de vegetais, um tipo de pão recheado e assado com legumes e queijo manchego; nos principais, confit de pato com purê de batatas e azeitonas e tartar de salmão assado servido com farofa molhada; de sobremesas, sonho de doce de leite com sorvete de creme ou creme de chocolate com folha gelificada de frutas vermelhas.

O couvert era o mesmo de sempre, com o ótimo alho assado nadando em azeite virgem, azeitonas verdes gigantes, amêndoas torradas, parmesão em pedaços, pães e torradas.

Viciada nesse alho!

O salão estava vazio quando chegamos mas em questão de minutos ficou lotado. A grande maioria das mesas estava ocupada para o evento. Mas o que vimos foi um serviço ágil, atencioso e discreto, independente da lotação da casa.

As entradas vieram rápido, porém tivemos tempo para apreciar o couvert na companhia de um ótimo Carmenère - para a satisfação do nosso atendente, cuja origem era a mesma do vinho, o Chile.

O gaspacho estava excelente, na temperatura certa, com acidez correta e ótimo equilíbrio entre os ingredientes marcantes, como pepino, pimentão, tomate e salsão. O pão de vegetais também era saboroso, úmido e com textura macia, interessante.

Sopa gelada

Coca de vegetais

Os principais também não demoraram a chegar; a quantidade não era farta, mas o sabor e execução compensaram. O pato era saboroso, com carne macia, soltando do osso. O purezinho de batata e azeitona estava uma delícia, pena que era pouqinho... o tartar de salmão também estava saboroso e fazia bom par com a farofinha úmida, com bastante azeite, alho e cebola. Para ser melhor, só precisaria ser mais!

Coxinhas de pato

Tartar de salmão

Pedimos ao nosso atendente que desse um tempinho antes das sobremesas, para que pudéssemos terminar com o vinho. O ambiente estava descontraído no salão, com vozes em volume mais alto, mas sem incomodar, bem no estilo do Esquinica.

As sobremesas não desapontaram. O sonho era bem recheado e sequinho, nada melhor que um bom sorvete para acompanhá-lo. Já o creme de chocolate foi uma grata surpresa, não esperava que fosse tão bom! De textura super cremosa, foi servido geladinho. Em meio ao creme, pedacinhos de chocolate davam contraste na boca, além do azedinho da folha gelificada de frutas vermelhas. Delicioso! Espero que se torne item definitivo do cardápio...

Sweet dream...

Que entre para o cardápio!

Bom jantar, boa companhia, bom vinho e... ótimo preço! Taí algo que o evento faz de bom: média de 50 reais por pessoa (sem o vinho) no Esquinica é algo que, definitivamente, vale muito à pena.

Terceira visita: Cayena (almoço)



Para quem não se lembra, conheci o Cayena durante a última edição do evento e falei sobre a experiência aqui. Achei que o evento deste ano seria uma boa oportunidade de voltar ao lugar para ver o que melhorou e saber o que de bom eles iriam oferecer aos comensais. Gostei das opções do menu, mas confesso que o cardápio do jantar me atraiu mais. Apesar de ter reservado para sábado à noite, tive que desmarcar devido a outro compromisso, mas não quis deixar passar e fui durante o almoço mesmo.

As opções eram: tortilla de batatas, aspargos e bacalhau ou mini bracciola com purê de maçã nas entradas; penne com mignon ao molho de mostarda com ervas finas, rúcula e parmesão ou Panang Curry com arroz thai jasmine; de sobremesa, bolo de fubá cremoso com goiaba em calda ou cocada caminho das índias.

Mamãe preferiu um prato do menu fixo de almoço, um picadinho com ovo poché, acompanhado de arroz, couve e farofa. Eu fui de tortilla de batatas, Panang Curry - um prato de curry com mignon - e o tal bolo de fubá cremoso.

As opções de vinho eram limitadas, ainda mais em se tratando de meia garrafa ou em taça. Só nos restou o Malbec da mini garrafinha que equivale a uma taça, que não desapontou.

Minha entrada veio junto com a saladinha do prato da mamãe. A tortilla não estava ruim, porém a proporção de batata e ovo estava bem desequilibrada, fazendo com que ela se parecesse mais com um omelete do que com uma tortilla. O bacalhau apareceu pouco, mais em forma de alguns fiapos escassos do que em lascas ou pedaços. O aspargo enfeitava o topo. O resultado foi uma tortilla ressecada e desinteressante, que depois tive a oportunidade de ver que os pedaços prontos estavam enfileirados na cozinha, em cima da bancada, não eram feitos na hora - nem mesmo finalizados na hora.



Os pratos principais demoraram bastante, tempo demais para um almoço. Não nos passou despercebido que nossos pratos foram dados à mesa ao lado, mesmo porque as duas pessoas haviam escolhido pratos do menu do evento e o que vi foi um picadinho e um Pagang Curry sendo servidos ao nosso lado. O mais impressionante é que a pessoa que recebeu o picadinho não se manifestou em nenhum momento sobre o equívoco... até cheguei a pensar que seria apenas um problema de servir as mesas fora de ordem mas, quando fomos questionadas se aguardávamos pela sobremesa e, diante da nossa resposta, uma cozinheira furiosa saiu da cozinha para ver o que fora servido à mesa ao lado, tive certeza do que se passou. Uma infeliz coincidência, já que no evento do ano passado erros deste tipo aconteceram e cheguei a mencionar que era um problema decorrente da ocupação atípica influenciada pelos preços mais baixos, porém algo com o qual o restaurante tem que saber lidar quando opta por participar do evento.

Após uma longa espera, nossos pratos vieram. Logo de cara, notei uma falta de preocupação com a decoração do prato do evento, já que o picadinho estava ok. Não que seja fundamental, mas é sabido que também comemos com os olhos e um prato monocromático e desproporcional não é esteticamente atraente...

O curry estava saboroso, com carne macia e molho pouco picante, porém correto. O arroz estava perfeito, aglutinado como um thai jasmine deve ser. Enfim, um prato bem executado, só pecou mesmo na estética.



O picadinho empolgou de cara, porém a gema dura do ovo poché desanimou um pouco, a expectativa era ver uma gema dourada e cremosa escorrer sobre a carne. A quantidade também é pouca, tudo vem em mini-porções, a couve, a carne, a farofa... em termos de sabor, estava apenas ok.

Aspecto bom...

... porém gema dura!

Já não estava lá muito entusiasmada com a sobremesa, mesmo porque sabia que mamãe iria fazer aqueles olhos pidões e eu teria que dar tudo pra ela. O bolinho de fubá, que prometia ser cremoso, tinha apenas uma camada cremosa em seu interior, mas estava gostoso, combinava bem com a goiaba em calda.

Bolinho da mamãe...

O preço dos pratos do almoço é bastante atraente, algo entre 20 e 30 reais, porém as quantidades são bem pequenas. Com relação ao evento, sinto dizer que não vou pagar para ver de novo em uma próxima edição. Quero sim voltar ao Cayena em uma nova oportunidade pois sei que há um bom trabalho por trás do cardápio, da escolha dos ingredientes e comando da cozinha pela chef Manuella Delatorre. O que não quero é sofrer com os tropeços que podem ocorrer em dias de casa lotada, prefiro conhecer o que o Cayena tem de bom sem o corre-corre do evento.

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Gallo Nero Ristorante
R. Maria Monteiro, 59
Tel.: (19) 3308-5711

Esquinica
Av. José de Souza Campos, 425
Hotel Vitória
Tel.: (19) 3755-8000

Cayena Bistrô
R. Capitão Francisco de Paula, 264
Tel.: (19) 3385-3033

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Folia com tapas no Esquinica

Foi-se o tempo em que eu tinha coragem de viajar no carnaval. Hoje em dia, prefiro mesmo passar quatro dias descansando e aproveitando a cidade vazia. Foi no sábado de carnaval que fomos conhecer o Esquinica, restaurante Ibérico instalado na parte nova do Hotel Vitória. Apesar do cardápio listar opções interessantes de pratos, as estrelas são mesmo os tapas, petiscos espanhóis elaborados com os mais diversos ingredientes - e, diga-se de passagem, muito bem selecionados - que agradam a qualquer paladar.

O salão é amplo e conta com decoração contemporânea de muito bom gosto, desde a iluminação até as mesas com tampos de madeira, sem toalhas e a cozinha aberta e bem iluminada, uma verdadeira vitrine. O serviço é dos mais atenciosos e discretos, pessoal muito bem treinado e conhecedor da proposta do restaurante.



Como fazia um calor senegalesco naquela noite, optamos pelo geladíssimo e bem tirado chopp Stella Artois para acompanhar nossas comidinhas.

O chopp e os detalhes que me agradam bastante em uma mesa, como duo de Tabascos e um bom azeite

O couvert é boa pedida, com pimentões assados, berinjela, cogumelos e azeitonas, tudo regado com um ótimo azeite e acompanhados de fatias de ciabatta e torradinhas.

Couvert que vale à pena

Para iniciar os trabalhos, pedimos ceviche de atum, que veio em cubos fresquíssimos do peixe marinados em limão, bem temperados e com cebola roxa. Uma porção é suficiente para dois beliscarem.

Ceviche fresquíssimo

Na sequência, pedimos os espetinhos de camarões empanados com molho de manga, uma porção de 7 unidades que marcaram nossa memória gastronômica: camarões gigantes, no ponto perfeito de cocção, crocantes e sequinhos, acompanados de um delicioso molho de manga que acabou no quarto espetinho e tivemos que pedir bis. Espetacular!

Imperdíveis!

Após os camarões, só mesmo outra delícia para não decepcionar o paladar: batatas barcelona, acompanhadas de um chorizo espanhol da melhor qualidade, azeite trufado e ovo caipira com gema mole. Incrível como os ingredientes conversavam entre si, o chorizo era apimentado na medida certa, cuja pungência era suavizada pelas batatas macias, adornadas pelo maravilhoso gosto de "gás" que o azeite trufado confere ao prato. A gema mole do ovo caipira pode ser comparada à cereja do bolo...

Para encerrar, os inusitados croquetes de plátano (banana) com queijo brie e parma. Não decepcionaram, mas a banana rouba muito a cena, deixando pouco espaço para o brie e o parma aparecerem no contexto.

Croquetes de plátano
Satisfeitíssimos com as delícias ibéricas, quase não tínhamos espaço para a sobremesa, mas duas opções chamaram nossa atenção a ponto de fazermos o "esforço" de experimentá-las: rabanada recheada com creme de baunilha acompanhada de sorvete e torta de maçã com crumble crocante e sorvete de baunilha.

A rabanada tinha recheio macio e cremoso e camada externa crocante e sequinha. O sorvete que acompanhava era especial, não tenho certeza do sabor mas era algo parecido com amendoim.

Rabanada

A tortinha era úmida e saborosa, com camada super crocante de crumble. O sorvete de baunilha também era um espetáculo, com textura muito leve e cremosa. Os "pontinhos" da fava da baunilha atestavam a qualidade do ingrediente, nada de essência.

A torta e o maravilhoso sorvete de baunilha

Com relação aos preços, considero-os totalmente dentro dos padrões para um restaurante que preza por excelentes ingredientes e tem em seu chef, Jonathan Wehrung, a origem de um ótimo cardápio e perfeita execução na cozinha. Couvert - 8 reais por pessoa; ceviche de atum - 22 reais; camarões empanados - 52 reais a porção com sete unidade; batatas Barcelona - 22 reais; croquetes de plátano - 15 reais a porção com 6 unidades.

Em suma, o Esquinica não é bom, é excelente. Seguramente, na minha opinião, um dos melhores restaurantes da cidade.



Esquinica Cozinha Ibérica
Av. José de Souza Campos, 425 - Hotel Vitória
Telefone: (19) 3755-8000

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Mais uma revisita: Conte Restaurante



Dessa vez a revisita foi ao Conte, restaurante que tive oportunidade de conhecer durante a última SPRW (leia o post aqui) e que se mostrou digno de uma nova visita devido ao bom desempenho na ocasião do evento e menú interessante.

O ambiente do Conte é agradável e acolhedor, ao passo que o serviço é dos mais simpáticos e atenciosos. O sommelier, além de demonstrar bom conhecimento, dá boas sugestões sem citar apenas os rótulos mais caros da carta. Nossa última visita foi em um almoço de domingo, ocasião em que a casa não estava lotada mas havia mesas próximas ocupadas por famílias inteiras, porém sem causar desconforto acústico.

Detalhe da decoração do hall de entrada

Estávamos em três e decidimos pedir duas entradas, um ceviche de robalo e uma porção de bolinhos de batata inglesa recheados com ementhal e sálvia. Nos principais, fui de medalhões de mignon com risoto de cogumelos, o maridão escolheu o lombo de cordeiro em crosta de shitake acompanhado de risoto de limão siciliano e mamãe foi de bife de tira com farofa crocante e batatas salteadas. Na hora de explicar o ponto, dei ênfase ao meu mal passado para não ter surpresas.

As entradas chegaram e percebi que, mesmo esganada como sou, a porção era beeeem farta. O ceviche poderia ser tranquilamente dividido em dois e ainda assim teria quantidade suficiente para uma entrada normal. Os bolinhos vieram em porção de 15 unidades, tamanho ideal para dividir entre duas ou três pessoas.

O ceviche estava gostoso e com o frescor necessário ao prato, porém achei que faltou um tiquinho de harmonia na quantidade de cítricos. Talvez um pouco mais de cebola (ou até cebola roxa) resolveria a questão, mas foi algo bem sutil que não tira o mérito do prato, estava saboroso e macio, sem o temido gosto "peixoso" para um prato de pescado crú. Ponto positivo para as finíssimas torradinhas de pão italiano com azeite e ervas, super crocantes.

Ceviche farto

Os bolinhos de batata eram deliciosos, com recheio macio e cremoso contrastando com a casquinha crocante de gergelim. O molhinho à parte, um tipo de barbecue, dava o toque final às bolinhas que eram devoradas às pressas.

Bolinhos-delícia

Os principais não tardaram a vir, a cozinha do Conte tem bom ritmo. A apresentação dos pratos é caprichada e as porções têm bom tamanho. O garçom me pediu para checar se o ponto dos meus medalhões estava conforme o desejado e só de espetar o garfo já pude dizer que sim, estavam perfeitamente mal passados. Quanto à maciez da carne, um espetáculo, daquelas de cortar com as costas da faca. O risoto estava no ponto correto de cozimento e com boa quantidade de cogumelos (porcini e paris), cremoso e saboroso. A carne ainda tinha um leve molho rôti e pimentas rosa.

Medalhões com risoto de cogumelos

... conferindo o ponto perfeito

O lombo de cordeiro veio envolto em cogumelos shitake e estava extremamente macio, salgado na medida certa e sutil no sabor da carne. O risoto de limão siciliano também tinha ponto correto de cozimento e sabor na medida. Tudo equilibrado e gostoso, justamente como deve ser.

Cordeiro

O bife de tira (um corte especial de picanha) acabou sendo o coadjuvante do prato, uma vez que a farofa crocante com pedaços de linguicinha apimentada roubou a cena. A carne em si estava boa mas um pouco além do ponto (pedido ao ponto para mal passado), mas aquela farofa compensou tudo, coisa divina. Taí a prova de que um acompanhamento simples pode ser alçado à condição de estrela do prato quando bem bolado e executado.

A fantástica farofa acompanhada do bife de tira...

Muito satisfeitos ao final da refeição, não sobrou espaço para a sobremesa, apenas pedimos um espresso para cada. Legal receber um mimo com o café, uma mini porção de doce como cortesia é um gesto muito bem vindo (e bem visto!) em tempos de cafés a preço de sobremesas. Em alguns lugares nem aquele shot de água com gás acompanha o caríssimo cafezinho... ponto para o Conte.

O café e o mimo: mousse de chocolate branco com frutas vermelhas

Os preços são honestos. Entradas entre 20 e 30 reais (vale lembrar que a quantidade é para dividir) e principais em torno de 50 e 60 reais. Opções boas e acessíveis na carta de vinhos, cuja apresentação é simples e didática. Mais uma gentileza do restaurante é oferecer o estacionamento com manobrista como cortesia, coisa rara nos dias de hoje, principalmente em se tratando da movimentada rua Sampainho no Cambuí.

Definitivamente, o Conte veio para ficar e se estabelecer como um dos bons e bem conceituados restaurantes da cidade.

Conte Restaurante
www.conterestaurante.com.br
Rua Sampainho, 251
Cambuí – Campinas
fone: 3325 4155

domingo, 22 de janeiro de 2012

Revisitando o Lagundri



Não escondo de ninguém que adoro o Lagundri, sou fã mesmo, costumo ir sempre que surge a oportunidade. Falei sobre ele lá no comecinho do blog, há quase dois anos e, de lá pra cá, pouco mudou com relação à qualidade da comida. Tudo o que sai da cozinha é sempre muito bem executado, com ingredientes autênticos da culinária do sudeste asiático e fidelidade aos métodos de cocção originais. Nunca saí frustrada de lá, mesmo pagando um preço relativamente alto - também não é novidade que o Lagundri é um restaurante caro, falei sobre isso no antigo post.

O que notei de uns tempos pra cá foi que o serviço mudou e não foi pra melhor. Todas as vezes em que estive no Lagundri sempre fui muito bem atendida por pessoas que iam além das nossas expectativas, não só servindo com cordialidade e eficiência, mas também demonstrando vasto conhecimento do cardápio, desde os ingredientes dos pratos até as harmonizações corretas com as bebidas disponíveis. Atendentes sempre muito simpáticos e solícitos explicavam pacientemente aos que ainda não conheciam a casa detalhes como os níveis de pimenta e definições sobre os exóticos componentes dos pratos, como lemon grass, oytster sauce, curry paenang, etc. Na nossa última visita, porém, nosso atendente (um que não me lembro de ter visto antes por lá) teve um comportamento que defino como extremamente blasé. Passou o tempo todo de cara fechada, sem boa vontade nenhuma para explicar algum detalhe do cardápio que, por ventura, não soubéssemos - vale ressaltar que nossa mesa era composta de pessoas conhecedoras da culinária do sudeste asiático, inclusive meu irmão que já morou na Tailândia - ou seja, fico imaginando como seria o tratamento dele com aqueles que vão pela primeira vez ao restaurante, cuja cozinha exótica ainda é pouco conhecida da maioria dos brasileiros.

Espero sinceramente que a falta de motivação do atendente em nada tenha a ver com o fato de termos levado nossos vinhos - não sem antes ligar para o restaurante para me certificar se o serviço de rolha estava disponível - pois isso muito me decepcionaria. A rolha cobrada pelo estabelecimento é justamente para que o serviço seja o mesmo prestado no caso da escolha de um vinho da carta. Paga-se para utilizar as taças corretas, o balde de gelo, enfim, para que o vinho (e o comensal) receba o mesmo tratamento de quando se pede um vinho da carta. Como tínhamos levado dois vinhos distintos (um branco e um rosé), precisávamos que as taças fossem trocadas entre um vinho e outro, coisa que tivemos que pedir ao nosso garçom e este o fez como se fosse o maior favor do mundo, uma lástima (para constar, o serviço de rolha custa 30 reais por garrafa).

Como estávamos em cinco pessoas, decidimos pedir duas entradas para dividir enquanto aguardávamos pelos pratos. Fomos informados que a porção de Popia Tawt (os rolinhos primavera tailandeses) era composta por 6 unidades, mas os espetinhos Satai Kai tinham apenas quatro unidades na porção, ou seja, se quiséssemos um para cada, teríamos que pedir um adicional. Até aí, sem problema nenhum, mas depois notei na conta que o espetinho adiconal custou R$ 6,50 enquanto a porção inteira não passava de R$ 20,00... fiquei sem entender o motivo do espetinho adicional sair mais caro que os outros.



Ignorando a atitude do garçom, nosso foco era a comida - e que comida! Os espetinhos de mignon (que também podem ser de frango ou porco) são marinados em temperos especiais, o que confere extrema maciez à carne e vêm acompanhados do maravilhoso curry paenang, um creme picante com sabor acentuado de amendoim. Os rolinhos primavera são sequinhos e crocantes, com recheio levemente picante e acompanhados do indispensável sweet chilli.

Nossas escolhas de principais foram "ecléticas": eu fui de Mie Goreng, um prato indonésio composto de glass noodles com legumes, castanhas de caju e carne (de porco, no meu caso) puxados na wok. O maridão e a Renata foram de Pad Thai, que dispensa apresentações (nem sei como consegui resistir e não pedir o meu amado Pad Thai de sempre); mamãe foi de Ko Tao, um prato composto de cubinhos de mignon com bastões de gengibre, abacaxi, moyashi, oyster sauce e whisky, tudo na wok, acompanhado de arroz Thai Jasmine com sementes de papoula e carambola; meu irmão escolheu o Hoisin Prawns, camarões grandes na wok com legumes crocantes, castanhas de cajú e molho hoisin, acompanhados de Thais Jasmine.

Nem preciso dizer que a apresentação dos pratos é levada a sério no Lagundri, as fotos falam por si só. O ambiente em si já é quase afrodisíaco, quando combinado com o aroma e sabor dos pratos, a experiência se torna algo mais que especial. É disso que estou falando:

Mie Goreng - um prato simples em sua origem, mas delicioso no sabor e combinação de ingredientes

Pad Thai - o ponto de cocção perfeito dos camarões e lulas é o diferencial do Pad Thai do Lagundri

Hoisin Prawns - fartura de camarões e sabor intenso

Ko Tao - uma das boas opções do cardápio para os carnívoros

Não tenho uma única crítica quanto aos pratos, todos são executados à perfeição. E isso vale para todas as vezes em que estive no Lagundri, a cozinha é muito regular, nada de altos e baixos, somente altos. É uma pena que a sensação com relação ao serviço não tenha ficado à altura da excelente comida, mas ainda assim foi um fato isolado, que ocorreu em uma única visita dentre outras que já fizemos ao restaurante. É um lugar que cobra um valor alto, não só pela comida mas também pelo serviço e ambiente. Há pratos mais simples que custam algo em torno de 40 reais, mas os mais elaborados podem chegar a 70 reais. As entradas custam em torno de 20 reais e a maioria pode ser tranquilamente dividida entre duas pessoas.

Para quem gosta desta culinária tão rica ou para quem quer conhecer novos sabores e surpreender não somente o paladar, mas também os outros sentidos, o Lagundri é "O" lugar.

domingo, 15 de janeiro de 2012

O Rosário é coisa nossa

Nosso retorno em 2012 será dedicado ao restaurante mais tradicional da cidade de Campinas, um velho conhecido dos comensais locais. Mas antes de falar sobre este sexagenário estabelecimento, gostaria de compartilhar com vocês as minhas resoluções de 2012 para o M.O.Q.B. - são elas:

1. Postar com mais frequência: sim, resolvi que quero manter a frequência semanal, mesmo que, eventualmente, surja um post ou outro com um conteúdo "alternativo" - obviamente relacionado à gastronomia e, se possível, à nossa região. Relaxem, não vou postar devaneios desconexos por aqui, o assunto sempre será comida e tudo o que está realacionado a ela.

2. Vou ser mais franca, sem me utilizar de eufemismos nos momentos de crítica. Ao reler alguns posts sobre lugares que não gostei ou que a experiência teve maus momentos, percebi que me preocupo muito em ser sutil para minimizar as críticas, quando deveria ser mais incisiva. Pois bem, serei...

3. Vou sair da zona de conforto em prol de conhecer novos lugares: isso quer dizer que, vez ou outra, vou abrir mão de ir aos lugares que mais gosto para conhecer outros, assumindo o risco de não ser legal - ou de ser surpreendente - e postando por aqui conteúdo mais diversificado.

Isto posto, vamos ao que interessa: o Restaurante Rosário é um marco da cidade, conhecido por todos e frequentado por clientes extremamente fiéis. Com um cardápio clássico e extenso, funciona num esquema praticamente de 24x7, ou seja, você provavelmente nunca vai encontrar a porta fechada, ele sempre está funcionando, inclusive em datas como Natal e Ano Novo. Além do salão, trabalha com entregas não só na cidade de Campinas mas também em outras da RMC e conta com área para happy hour.

Das opções do menu, destaque para a infinidade de opções de filés (todos mignon), como os clássicos Luiz XV, Steak au Poivre, Steak à Diana ou Chateaubriand. Praticamente todos os tipos de carne também são feitos no churrasco, como cordeiro, pintado, lombo e espetos. Mas o que me faz crescer os olhos mesmo é o tal Camarão Saint Jacques: meia dúzia de camarões gigantescos, recheados com catupiry (the original) e empanados, a verdadeira "desgraça em forma de delícia". Só de camarão são nove opções, além dos peixes, que incluem moqueca, abadejo, salmão, bacalhau e pescada, em diversas preparações. Completam o cardápio opções de massas, aves, guarnições, saladas, entradas e sobremesas. É o tipo de lugar que agrada a absolutamente todos os paladares, impossível não achar algo de que se goste, mesmo para quem tem restrições alimentares. Na minha cabeça, costumo comparar o Rosário ao Gigetto, restaurante tradicionalíssimo do centro de São Paulo que, há mais de 70 anos, serve seus clientes de forma initerrupta - não fecha nunca! - principalmente nas altas horas da madrugada, lá na rua Avanhandava.

Nossa visita foi durante um almoço de domingo, quando tivemos que enfrentar uma espera de cerca de meia-hora por uma mesa para quatro. São famílias inteiras que vão ao Rosário num almoço de domingo, mesas grandes mesmo, mas a fila é organizada. O bom é que pode-se esperar no balcão do bar, com um chope Brahma muito bem tirado, o que ameniza qualquer espera. Durante a semana o movimento também é grande durante o almoço, mas no jantar não há dificuldade nenhuma para se conseguir uma mesa.

O ambiente, como não poderia deixar de ser, tem decoração clássica e boa climatização. Mesmo com a casa cheia o conforto acústico é bom. O serviço é daqueles que nos dão sensação de nostalgia, com garçons experientes, que têm anos de casa, vestidos com paletós brancos e gravatas borboleta.

Já fizemos nossas escolhas enquanto esperávamos pela mesa, então após nos sentarmos não esperamos 15 minutos pelos pratos. O couvert, com pães frescos, manteiga, patê e berinjela, ajuda a segurar a onda a amenizar o apetite.

Pedimos um Filé à moda para dividir em dois: filé mignon alto, molho rôti com funghi e castanha de caju, arroz e brócolis. Obviamente, o ponto foi bem mal-passado, ao qual dei bastante ênfase. Mamãe foi de Luiz XV, um filé mignon grelhado com bacon, molho madeira e acompanhado de arroz, creme de aspargos e batatas griset. Meu irmão foi de abadejo ao alho e óleo com legumes.

Nosso filé veio lindo e no ponto perfeito, dois medalhões altos e ultra macios. Fiquei encantada com a forma old school do garçom para servir o prato, com a técnica das duas colheres. Só de espetar a carne eu sabia que o ponto estava correto. Muito saboroso e harmônico, além da fartura que me agradou bastante - é claro!

Filé à Moda já montado no prato, porção para uma pessoa.

O ponto perfeito!

E a técnica das duas colheres!

O Luiz XV também veio no ponto certo do pedido, carne muito macia e acompanhamentos corretos. O peixe também veio em filé grande, com flocos dourados de alho por todo o prato. Tudo gostoso, sem falhas!

Luiz XV para uma pessoa

Abadejo ao alho e óleo

Os valores são justos, não se pode querer pechinchar comida de boa qualidade em tempos de custo Brasil elevadíssimo. Pratos individuais em torno de 40 reais e, para duas pessoas, em torno de 80 reais. Nada que possa ser considerado caro, apenas dentro dos padrões atuais, sem surpresas.

O Rosário é um porto seguro na cidade. É daqueles lugares que você vai sabendo o que vai encontrar, sem o receio de que algo não esteja legal. Eventualmente, eles têm a carne de Kobe, se você está em busca de uma experiência carnívora sublime, peça sem medo pois eles sabem preparar a carne com todo o zelo que ela merece. Recomendo o Rosário de olhos fechados pois confio no seu vasto know how, adquirido através de décadas de boa comida e bom serviço.

Restaurante Rosário
Rua General Osório, 941
fone: 3232-8400
www.restauranterosario.com.br

domingo, 6 de novembro de 2011

Relax e boa comida: a fórmula perfeita do DPNY

Foram 48 dias sem postar por aqui! Minha ausência deve-se a mais absoluta falta de tempo, decorrente de uma rotina cada vez mais insana na qual me meti e da qual não sairei tão cedo, com exceção de uma merecida semaninha de descanso. E é sobre esta semana que quero falar, pois não foi à toa que escolhi um lugar que alia conforto, relaxamento à beira-mar e boa gastronomia: o DPNY, em Ilhabela.

Poderia gastar algumas linhas falando sobre a excelente infra do hotel, das belas instalações, dos mimos como espumante no café da manhã - que vai até às 13h todos os dias! - e máquina de Nespresso no quarto... enfim, se este blog fosse de turismo, este seria nosso assunto principal, mas estamos aqui para falar de comida e de boa comida, então vamos nos ater ao que interessa.

Acho que o maior benefício do DPNY é ter em suas dependências o restaurante Tróia, premiado com uma estrela do Guia Quatro Rodas pelo quarto ano consecutivo pela qualidade de sua cozinha. O hotel oferece um pacote com café da manhã e jantar inclusos que, ao meu ver, tem a melhor relação custo x benefício do litoral paulista. Pode-se escolher qualquer prato do cardápio (entrada, principal e sobremesa) e as bebidas e serviço são a parte. O restaurante abre também para o público em geral, daí a necessidade de se fazer reservas mesmo para hóspedes.

O ambiente é agradável, com uma boa parte aberta para permitir a entrada da brisa do mar (não temam os borrachudos, aqui eles são minoria), velas nas mesas e cadeiras estofadas em vermelho vivo. O serviço é atencioso e discreto, mas notei diferença entre garçons a cada jantar, alguns não tão bem treinados quanto outros. Há também um sommelier à disposição dos comensais, já que a carta de vinhos é relativamente extensa e variada.

Boas opções no menu, de influência mediterrânea contemporânea, entre peixes, frutos do mar, carne vermelha, aves (inclusive pato) e cordeiro. Fiquei bastante em dúvida na hora de escolher, pois muitas das opções me pareciam tentadoras. Como teria 4 jantares pela frente, tentei me policiar para variar as minhas escolhas e tentar experimentar o maior número de pratos diferentes. Confesso que tive vontade de repetir algumas escolhas no dia seguinte, caso do Saint Peter marinado da entrada da primeira noite, mas me ative à proposta inicial (ok, me arrependi de não ter pedido de novo, mas isso fica entre nós).
Para não confundí-los com muitas informações, vou listar os pratos de cada dia e colocar apenas algumas fotos, mas comentarei todos:

Primeira noite

Eu
Entrada: San Pietro marinato - Saint Peter marinado com limão, cebola e gengibre;
Principal: Misticanza di frutti di mare - peixe, camarão e polvo grelhado, com legumes assados ao molho de vinho branco e especiarias;
Sobremesa: Crespella di cioccolato con pistachi - Trouxinha de chocolate com pistache e sorbet de framboesa

Maridão
Entrada: Conciglioni con brandade di baccalá mantecato - Massa recheada com bacalhau gratinada ao pesto de rúcula
Principal: Nero al mare - Talharim de tinta de lula com frutos do mar
Sobremesa: Mousse de caramelo com granité de café e amêndoa crocante


Comentários gerais:
O Saint Peter marinado foi a melhor das entradas que experimentei, lascas macias e carnudas de peixe bem marinado, com cebola fininha e um leve sabor de gengibre. Equilibrado, leve e extremamente saboroso. Fiquei de olho o conciglioni do maridão, com recheio de bacalhau bem cremoso e pesto leve, muito boa também. Dos principais, os frutos do mar do meu prato estavam bons e no ponto de cozimento correto, porém senti falta de um molho que criasse uma união entre os elementos do prato. O talharim estava saboroso e no ponto correto também, com boa quantidade de frutos do mar. Com relação às sobremesas, minha percepção é de que são idéias criativas e ingredientes interessantes, porém a execução deixa a desejar. De todas que provei, a mais interessante foi o carpaccio de abacaxi, sobre o qual falaremos em seguida. As mousses tinham textura pesada e não eram aeradas. Os sabores eram mascarados, caso da mousse de cupuaçu, cujo sabor em nada lembrava a fruta. No caso das sobremesas da primeira noite, as trouxinhas de chocolate tinham crosta muito grossa e chocolate extremamente amargo - vale lembrar que sou fã de chocolate com até 90% de cacau, por isso até eu estranhei a potência do chocolate da sobremesa. A mousse de caramelo era pesada e o granité de café só ajudou a deixar tudo mais denso. O ponto positivo da história é que não dou a mínima para doces e nem costumo pedir sobremesa com frequência, mas neste caso elas faziam parte do pacote e não sou de desperdiçar nada...

O couvert nosso de cada dia... os pães eram irresistíveis!


Entrada campeã: Saint Peter marinado


Segunda noite

Eu
Entrada: Terrina di melanzane con salsa di gaspacho - Terrine de berinjela com molho de gaspacho;
Principal: Petto d’anatra - Peito de pato com redução de balsâmico, gratin de batata e ervilhas;
Sobremesa: Carpaccio di ananas - Carpaccio de abacaxi ao mel com raspas de limão;

Maridão
Entrada: Azzurra - Alface americana, alcachofra, azeitonas pretas e tomate cereja ao vinagrete balsâmico;
Principal: Entrecote com risoto di formaggio - Entrecote com risoto de gorgonzola;
Sobremesa: igual à minha

Comentários gerais:
A terrine de berinjela tinha textura cremosa e sabor intenso, gostei da combinação com o molho de gazpacho, mesmo sendo uma entrada fria (o que pode causar certa estranheza em quem associa o gazpacho a um molho de tomate). A salada era bem básica e sem segredos. O peito de pato, apesar de eu ter pedido mal passado, veio ao ponto e não tão macio quanto o desejado. A carne tinha uma rigidez inconveniente, o que talvez pudesse ter sido amenizada com o ponto correto da carne. Por outro lado, o gratin de batata estava ótimo, mas a quantidade de carne era pouca se comparada ao acompanhamento. Com o entrecote aconteceu o mesmo problema de ponto, apesar da nossa insistência em sempre explicar ao garçom o ponto desejado (bleu). Veio errado e voltou para a cozinha. Na segunda tentativa, o ponto veio correto. Risoto de gorgonzola bem executado e saboroso. A surpresa ficou por conta do carpaccio de abacaxi, do qual nada esperávamos, mas que se mostrou delicioso, com intenso frescor e equilíbrio.

Terrine com gaspacho

Pato

Dentre tantas sobremesas elaboradas, quem diria, o abacaxi sagrou-se campeão...


Terceira noite

Eu
Entrada: Kibe veggie - Kibe de soja com legumes e salsa de coalhada com hortelã;
Principal: Carre di agnello alla brasilianna - Carre de cordeiro com cuscus paulista e couve;
Sobremesa: Panna cotta con amarena e pistachi - Panna cotta com cereja amarena e pistache;

Maridão
Entrada: Carpaccio Rustico di Manzo - Carpaccio rústico de mignon com mostarda Dijon e lascas de parmesão;
Principal: Costolette di maiale - Costela de porco com molho de pitanga, arroz e legumes;
Sobremesa: Torta fredda di cioccolato al café - Torta fria de chocolate com café e avelã;


Comentários gerais:
O kibe veggie era mais interessante no cardápio que no prato. Apesar do sabor delicado, era um tanto ressecado, talvez devido à escassez do molho de coalhada. Já o carpaccio rústico de mignon era divino, nada daquelas fatias finíssimas de lagarto congelado, as fatias de mignon eram mais espessas, ultra macias e bem temperadas com Dijon, além das muitas lascas de bom parmesão por cima. Depois do Saint Peter marinado, a melhor entrada que provamos. O carré de cordeiro tinha carne bem tenra e saborosa, fazendo boa parceiria com o cuscus e a couve. A quantidade talvez deixe um pouco a desejar. Já as costelinhas de porco eram macias e o molho de pitanga harmonizava perfeitamente com a carne, mas o acompanhamento de arroz branco pode ser simplório demais para um restaurante deste nível. Para figurar neste cardápio, no mínimo um arroz pilaf... os legumes estavam quase crus e, em se tratando de anéis grossos de cebola, isso não é um mérito. A panna cotta estava firme demais, deveria ter a textura um pouco mais suave, mas o sabor das cerejas amarenas e do pistache contribuíam bastante para o conjunto. A torta fria de chocolate também pesava em textura, pegando na colher e no céu da boca.

O kibe do arrependimento

Carré de cordeiro

Costeletas de porco


Quarta noite:

Eu
Entrada: Riso nero con frutti di mare - Arroz negro com camarão, lula e mariscos ao molho de limão;
Principal: Taglioline con Gamberi alle herbe - Massa fresca produzida na casa, puxada com camarões e vinho branco;
Sobremesa: Mousse brasilianna - Mousse de cupuaçu com redução de chocolate;

Maridão
Entrada: San Pietro marinato - Saint Peter marinado com limão, cebola e gengibre;
Principal: igual ao meu
Sobremesa: Crème brûlèe - Creme a base de fava de baunilha

Comentários gerais:

Pra variar, me arrependi de não ter pedido o Saint Peter de novo... o arroz negro poderia ser mais interessante se tivesse algum molho ou elemento que o umidificasse, pois os grãos somente cozidos ficam sem graça. Os frutos do mar eram poucos e vieram separados, ou seja, deveria existir algum elemento de ligação entre os componentes do prato. Enquanto eu buscava algo que me entretesse naquela entrada, o maridão se fartava com os nacos carnudos do peixe marinado... para compensar a entrada insossa, a massa veio trazendo alegria, fresquíssima e cozida à parfeição, o "não-molho" de vinho branco e ervas dava um sabor delicadíssimo ao prato, com camarões estourando na boca. Já esperava alguma decepção na sobremesa e minha mousse de cupuaçu não me surpreendeu. Apesar da textura um pouco melhor desta vez, o sabor da fruta simplesmente não estava ali, por mais força que eu fizesse para encontrá-lo. A redução de chocolate, por outro lado, estava ótima. O crème brûlèe do maridão tinha textura correta, casquinha fininha e sabor de baunilha de verdade, nada de essência.

Regrets again com o riso nero...


A massa divina!

Se não estivéssemos no pacote Gourmet, cada jantar teria saído em média R$ 300,00 (com vinho). Apenas uma opção de entrada, prato principal e sobremesa não estão incluídos no pacote, porém podem ser pedidas com um acréscimo de 20 reais. São elas: Gamberetti Provenzale (camarões a provençal), Gamberi Tróia (camarões com molho de laranja e fava de baunilha, purê de cará e legumes) e Budino di cioccolato con gelato di vaniglia
(Petit gateau com sorvete de baunilha). Como não sou tão fanática por camarões e as opções do cardápio eram variadíssimas, não me interessei, mas vi alguns passando por mim e não me pareceram dignos do acréscimo (diante de outros pratos também com excelentes ingredientes). Em suma, a estadia no DPNY vale à pena não só para os que buscam conforto e uma certa sofisticação à beira-mar, mas também para aqueles que, assim como eu, anseiam por uma gastronomia de alto nível durante seus dias de folga.

DPNY Beach Hotel Ilhabela
Troia Dining & Music
www.dpnybeach.com.br
fone: (12) 3894-3000

domingo, 18 de setembro de 2011

Hoje é dia de... Bacalhau!

Outro dia recebi um panfleto de um lugar chamado Esquina Portuguesa, cujas fotos dos pratos de bacalhau me despertaram um desejo enorme de comer o peixe de águas geladas. Gosto muito de bacalhau, não só do que minha querida avó faz com maestria do alto de seus 87 anos, mas de qualquer prato que leve o ingrediente, contanto que seja de boa qualidade. Existem critérios importantes a serem considerados na hora da escolha de um bom bacalhau e não é qualquer peixe salgado que satisfaz os comensais mais exigentes. Aliás, aqui cabe uma pequena explicação sobre o bacalhau, que não é um peixe específico, mas sim a forma de conservar um determinado tipo de peixe através do processo de secá-lo e salgá-lo.

São cinco tipos de peixes que podem ser considerados bacalhau: o legítimo bacalhau, feito de um peixe chamado Cod Gadus Morhua, pescado no Atlântico Norte, o mais nobre dos bacalhaus. Há também o Cod Gadus Macrocephalus, conhecido como o legítimo Porto, difere do primeiro pelo seu habitat, que é o Pacífico Norte, além da carne mais clara e bordado branco no rabo e barbatanas. Já o Ling é um peixe bem mais claro e estreito que os outros, cuja carne é bonita e boa para grelhar (um dos mais encontrados nos mercados do Brasil). Há também o Saithe, de coloração mais escura e sabor forte, mais indicado para preparações como recheios, bolinhos, ensopados e saladas (com carne desfiada). Por último, o Zarbo, com preço mais acessível e tamanho ideal para cortes tranversais. Além dos tipos de peixes, há também a classificação quanto à categoria do bacalhau: Imperial, que significa que o corte está ideal e que o peixe foi bem manipulado no processo de escova e cura; Universal, que classifica peixes com pequenos defeitos, porém sem alteração de paladar (que deve ser equiparado ao Imperial) e, por fim, Popular, que apresenta manchas e pedaços faltantes devido ao manuseio errôneo do arpão na hora da pesca.

Isto posto, justifica-se a importância dos restaurantes espcializados na iguaria indicarem a seus clientes a origem de seu peixe, pois há diferenças cruciais entre os tipos e seus respectivos valores. No caso da Esquina Portuguesa, foi me dito que o bacalhau utilizado é o Norueguês, logo, trata-se do legítimo e mais nobre bacalhau. E já que a estrela é de grande magnitude, nada mais óbvio do que caprichar nos demais ingredientes do prato, como azeite extra virgem, azeitonas portuguesas, batatas do tipo HBT e assim por diante. No cardápio, receitas tradicionais, como Bacalhau Gomes de Sá, Zé do Pipo, À Portuguesa, À Espanhola, gratinado ao Forno, grelhado... difícil escolher, pois as fotos são todas muito apetitosas. Os pratos podem ser todos para uma ou duas pessoas, porém o valor para uma pessoa corresponde a 60% do valor do prato para duas pessoas. Não há opções de pratos executivos de bacalhau e a porção para uma pessoa é gigantesca, até para mim, que sou um verdadeiro exemplo de saco sem fundo e nunca deixo sobrar comida na mesa.

Meu prato (o primeiro)

Escolhi o clássico Gomes de Sá, com postas ao forno acompanhadas de batatas, azeitonas e ovo cozido. O restaurante estava vazio e, mesmo sendo um prato de preparo mais demorado, a espera não foi grande. A porção para uma pessoa veio em uma travessa grande e não era só a batata que fazia volume, contei umas quatro postas bem carnudas de bacalhau ali dentro. O garçom me serviu, no melhor estilo das duas colheres - old school - e montou um prato de tamanho razoável, provavelmente não imaginando o apetite desta que vos escreve. Bela aparência das postas, com carne tenra dividida em lascas que se soltavam facilmente, atestando sua maciez. Batatas macias nadavam em bom azeite, acompanhadas dos ovos cozidos e azeitonas. Tudo bem saboroso, aprovadíssimo desde a primeira garfada.

O que sobrou após o primeiro prato

Fiz um segundo prato e, mesmo assim, sobrou o equivalente à metade da travessa. Ou seja, a porção para uma pessoa serve duas, tranquilamente. Imagino que a porção para duas sirva três (ou quatro sem muito apetite). Neste caso, o preço de 45 reais pelo prato se mostra uma verdadeira pechincha em tempos que se paga 50 reais por um picadinho em um restaurante da moda.

Simples, mas bem arrumado e agradável

O ambiente é simples mas o serviço é atencioso e cortês. O cuidado com os ingredientes mostram que há boa dose de know how por parte do dono. Trabalhar com matéria prima de qualidade (e com consequente custo elevado) exige conhecimento para não onerar o produto final. Deve ser por isso que a Casa do Bacalhau, o restaurante mais antigo do mesmo dono, está firme e forte no Guanabara há 13 anos.

Esquina Portuguesa
Rua Dona Maria Umbelina Couto, 650 - Taquaral
fone: 3251-8010
(fecha às segundas)